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Projeto Xingu: No Coração do Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu. Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo. Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura. Anteriores: Altamira (por Patrick Cunningham) Altamira é um dos dez membros do Consórcio Belo Monte, conjunto de municípios que dão suporte à construção, pela companhia de energia Eletronorte, de uma enorme usina hidrelétrica nas proximidades de Altamira. À primeira vista, a represa parece ser um projeto bem-fundamentado que vai trazer benefícios para a região e para o Brasil como um todo, e que vai prejudicar as vidas de um número pequeno de pessoas apenas. O projeto é parte do Programa de Aceleração do Crescimento do governo brasileiro, mas já enfrenta uma série de processos legais que ameaçam as metas do governo de completar os procedimentos de licenciamento em meados de 2008. Uma questão central nos processos legais é o mecanismo para consultar as comunidades indígenas que seriam afetadas. De acordo com uma decisão do Tribunal Regional Federal, isto é responsabilidade direta do Congresso, e não pode ser feito pelo Ibama, que já começou a definir os termos da consulta sem um decreto do Congresso. Na última fase da expedição Coração do Brasil, todas as aldeias indígenas e comunidades ribeirinhas que visitamos, desde antes de São Félix do Xingu até depois de Altamira, mostraram-se fortemente opostas à represa. Elas disseram que estão planejando um grande protesto.
Há muitas questões envolvidas. Quem exatamente vai se beneficiar da grande capacidade de geração de energia que está sendo proposta? Não falta energia na região, e o progresso recente na tecnologia de painéis solares promete abastecer até mesmo propriedades rurais com energia em abundância. A usina de Tucuruí, nas imediações, gera bastante energia durante a maior parte do ano, e sua capacidade foi praticamente dobrada recentemente com o término de uma segunda fase. Mas os grandes beneficiados por Tucuruí foram as corporações privadas de mineração, que negociaram contratos bastante generosos, resultando em suprimentos subsidiados de eletricidade para suas atividades comerciais. Recentemente, Tucuruí foi ocupada por pessoas que foram desalojadas para a construção da represa há mais de 20 anos, e que ainda brigam por indenização adequada. Como o Xingu seca substancialmente entre os meses de julho e outubro todos os anos, muitos questionam a viabilidade técnica do projeto. Um livro publicado recentemente, intitulado Tenotã–mõ (que na língua Araweté significa o que segue à frente ou o que começa) explica que uma segunda represa terá de ser construída para justificar a existência da primeira, mantendo-a abastecida durante os meses de seca e portanto permitindo que a usina opere durante todo o ano. A Eletronorte não tem falado abertamente sobre isso. A segunda represa inundaria 15 vezes mais terra do que a primeira, e afetaria muito mais índios e populações ribeirinhas. Restam questões sobre a quantidade de energia que seria gerada. Tucuruí freqüentemente opera com menos de um terço de sua capacidade. É possível que, na estação seca, a usina seja incapaz de gerar qualquer energia. Certamente, seria mais sensato melhorar a operação da usina existente do que afogar tantos mais quilômetros quadrados de floresta? Até os argumentos ambientalistas favoráveis a esta forma de gerar eletricidade sem o uso de combustíveis fósseis estão sendo questionados. Os gases produzidos pela vegetação apodrecida vão mais do que anular quaisquer benefícios derivados do não-uso de combustíveis fósseis para gerar energia durante os primeiros 39 anos de operação da usina. Para os índios, o efeito das duas represas seria desastroso. Suas vidas seriam completamente transtornadas, e eles não teriam alternativa a não ser passar a integrar a "sociedade baseada em dinheiro" para adquirir produtos básicos do dia-a-dia, incluindo comida. Isso degrada e corrói o âmago de sua cultura e os torna dependentes de assistência externa para se manter. Pescar em águas abertas é muito mais difícil do que em canais confinados, e como o peixe é a principal fonte de proteína para os índios, eles seriam incapazes de suprir suas necessidades básicas de alimentação. Eles já têm dificuldade quando o rio está cheio e o efeito seria piorado drasticamente pelas represas. As represas transformariam a ecologia de milhares de quilômetros quadrados de floresta equatorial de forma imprevisível, alterando o equilíbrio entre as espécies e afetando até o clima. Os que propõem a construção da represa usam a incerteza para mascarar os prováveis impactos negativos. Mesmo um estudo social e ambiental independente tem pouca probabilidade de identificar todos os problemas. Dentro da escala de tempo estabelecida pelo governo, é simplesmente impossível fazer uma avaliação que vá além dos efeitos superficiais da proposta. Não está claro, pela quantidade bastante restrita de informação disponível no site da Eletronorte, se os efeitos das mudanças climáticas e a redução na vazão do rio que resultariam da proposta construção de seis hidrelétricas na bacia do Xingu foram levados em conta nos estudos técnicos em que o projeto foi baseado. Ao longo do rio, todo mundo, dos índios aos fazendeiros, dos caboclos aos homens de negócio nas cidades, vem nos falando sobre as mudanças no clima local. Não há dúvida agora de que o clima está mudando e mudando muito rapidamente. A população local fala de uma diminuição nas chuvas entre os meses de outubro e dezembro, e de temperaturas muito mais quentes durante todo o ano. Fala-se também de níveis muito mais baixos nos rios durante a estação seca, com os níveis de água extremamente baixos, que dificultam viagens pelo rio, chegando várias semanas antes. É possível que o governo brasileiro decida ignorar os direitos das pessoas vivendo nas margens do rio e implementar esta proposta, argumentando que ela vai beneficiar o povo brasileiro como um todo. O argumento parece ser falso, e os únicos beneficiados parecem ser um punhado de corporações brasileiras e internacionais. A caminho de Paquissamba, nós passamos pelo local da primeira represa proposta. A aldeia fica atrás do local, e o rio naquele ponto será completamente isolado, deixando a aldeia seca, incapaz de pescar e de usar o rio para transporte. Mais abaixo, retomamos o curso do rio, tendo retornado para Altamira para levar o Coração do Brasil por terra para Vitória do Xingu para a última fase da expedição. O rio aqui tem as proporções de um lago. Entre Vitória e Porto de Moz há uma distância de 120 quilômetros, e o rio tem mais de dez quilômetros de largura durante a maior parte do percurso. Nós encontramos condições quase marítimas, nosso pequeno bote balançando repetidamente nas ondas, nossos ossos chacoalhando e nossa visão embaralhada. No mais, esta última jornada no Coração do Brasil correu sem grandes novidades, então Sue e eu tivemos bastante tempo para refletir sobre nossas experiências nos últimos quatro meses. Aprendemos muito durante nossa viagem, reencontrando velhos amigos em algumas aldeias e ganhando novos em outras. Na medida em que nos aproximávamos, velozes, de Porto de Moz, nosso destino final, pensávamos sobre a força e vibração das culturas indígenas que vimos, e refletíamos sobre o progresso que muitos grupos étnicos fizeram no caminho da auto-determinação. Derramamos algumas lágrimas pelas aldeias onde as coisas estão tão piores do que eram, e pensamos sobre as ameaças ao rio e ao seu povo que são tão poderosas hoje, das fazendas de soja às usinas hidrelétricas nas cabeceiras à proposta represa de Belo Monte, gigantesca, tão perto da desembocadura do rio. Pensamos sobre o que deve ser feito para proteger este rio que viemos a conhecer tão intimamente, com suas vistas de tirar o fôlego, suas correntezas ferventes, suas curvas majestosas, suas florestas vibrantes e seu povo extraordinário. Nós percebemos que nossa jornada, longe de ter terminado, está apenas começando. A expedição Coração do Brasil é patrocinada por: Royal Geographical Society, Rainforest Concern e Artists Project Earth. |
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