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Atualizado às: 28 de abril, 2007 - 00h17 GMT (21h17 Brasília)
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

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Tradições, TV e Rádio (por Patrick Cunningham)

Os povos do Xingu são muito semelhantes entre si, mas cada tribo tem sua própria língua e seu próprio tipo de artesanato. Os Kalapalos são conhecidos por seus colares muito bem fabricados, feitos tanto de conchas de caramujos, delicamente intercalados em camadas, como também de contas achatadas que são colocadas uma a uma em forma cilíndrica. Os Matipus fabricam tapetes, arcos e flechas.

Os Awetis também fazem ótimos arcos e flechas, e usam um antigo processo para fazer um tipo de sal. Eles cultivam uma determinada espécie de planta aquática, que após a colheita, põem para secar ao sol, a queimam, para em seguida juntar as cinzas. Depois, as mulheres da tribo passam dias e noites pacientemente correndo um filete de água pelas cinzas, controlando a freqüência e quantidade da água, de modo a formar cristais de sal. Após passar por outras etapas de processamento, o sal estará pronto para ser trocado com outras tribos como mercadoria, num sistema de escambo conhecido por moitara, através do qual cada tribo usa seus produtos como moeda de troca.

Os Wauras são a única tribo a fabricar cerâmica, utilizando um método que eles mantêm em segredo e que envolve o tipo de barro que é usado. Além dos utensílios domésticos que são usados em diversas tribos do Parque do Xingu, a tribo fabrica potes decorativos, feitos em forma de animais e pintados cuidadosamente a mão.

No tempo dos irmãos Vilas Boa, os povos do Xingu eram protegidos, e seus produtos não tinham que enfrentar a competição externa. Por exemplo, potes e panelas de metal que são usadas para fazer mingau e beju, ambas feitas de mandioca, não eram permitidas entrar na reserva, porque poderiam prejudicar a economia e as tradições artesanais da tribo Waura.

Atualmente, estas barreiras de preservação não existem mais, e vários itens de artesanato já deixaram de ser produzidos e foram substituídos por outros manufaturados ou perderam sua relevância. Hoje em dia, boa parte da pesca é feita com anzóis e linha de nylon e a caça é feita com espingardas, o que tem colaborado para o rápido desaparecimento da arte de confecção de arco e flecha, à exceção dos arcos feitos para servirem de brinquedos para as crianças e que são vendidos como souvenir fora das comunidades indígenas.

Vários outros artigos anteriormente fabricados e usados pelos Wauras em tarefas cotidianas, como cestos e potes de cerâmica, são feitos atualmente apenas para serem vendidos fora da reserva. Com o dinheiro obtido nessas vendas, os índios podem comprar os itens dos quais dependem hoje em dia, como combustível para os barcos, motocicletas, tratores, caminhões, bicicletas, facas, panelas de alumínio e roupas. Algumas tribos acreditam que isto acaba enfraquecendo a cultura indígena, mas o mesmo argumento é usado por membros da tribo que não pensam duas vezes em comprar o mais novo equipamento eletrônico, para não permitir que a cultura indígena acabe ficando atrasada.

Um dos itens que têm causado um enorme impacto na cultura dos índios é a chegada da televisão. Os aparelhos de TV não são apenas caixas prateadas brilhantes que parecem estar totalmente fora de lugar na penumbra de uma oca tradicional com teto de sapê, mas leva uma cultura alienígena diretamente ao coração da aldeia.

O brilho da última novela da TV Globo é sedutor, mas leva com ele uma idéia distorcida da vida dos caraíbas, como os índios chamam o homem branco. Os índios, que não contam com nenhuma outra referência para avaliar a sociedade brasileira, absorvem a idéia que se trata de um povo constantemente envolvido em intrigas, desonestidade e infidelidade banal.

Pior ainda são os DVDs de filmes americanos que circulam por entre as aldeias, exibindo monstros de outras galáxias, ou então, mostrando assassinatos e confusão como coisas normais. Portanto, não deve ser surpresa o fato dos brancos que visitam o território indígena freqüentemente saírem com a impressão de que não é um local seguro. Para muitos índios, a vida fora da reserva é exatamente como mostram os filmes, e portanto, tratam os visitantes do mesmo modo que vêem na TV.

Para os líderes das aldeias este é um problema difícil. A sociedade indígena funciona de modo totalmente diferente de uma cultura urbana. As crianças aprendem por observação e experiência prática, e não há o sistema de punição e recompensa comum nas escolas e casas das cidades. Mas, quando surge um novo exemplo, sobre o qual não possuem nenhum controle e que traz idéias e hábitos completamente diferentes dos tradicionais, os professores e caciques não conseguem encontrar formas claras de evitar os efeitos destrutivos. O problema fica de alguma forma limitado pela disponibilidade do óleo diesel que é usado nos geradores de energia, mas os líderes tribais estão tentando estabelecer uma política para lidar com o problema de forma eficaz.

A arma ideal para contrapor esta influência seria a criação de um canal de televisão com programação dedicada aos povos do Xingu, inteiramente produzida pela própria comunidade indígena, mas os elevados custos tornam o projeto um sonho longe de ser atingido.

Uma alternativa viável, que poderia colaborar de alguma forma para acabar com a desinformação, seria a criação da estação Rádio Indígena do Xingu. O projeto existe e tem sido desenvolvido por uma equipe composta por representantes de diversos grupos étnicos. Atualmente, já têm sido produzidos programas que têm sido distribuídos em CDs às aldeias. Tudo que precisam é dinheiro para a compra de equipamento de transmissão.

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