BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 08 de junho, 2007 - 20h37 GMT (17h37 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

Anteriores:

Minhas bodas no Xingu (por Patrick Cunningham)

Hoje é nosso aniversário de casamento. Eu e Sue vamos comemorar a data na aldeia Metuktire da tribo Kayapó, próxima à cachoeira Von Martius. Daqui podemos ouvir o barulho da água nas corredeiras dos rios que desaguam no Amazonas, nosso destino final. Pelo som, parece longe, mas muito longe mesmo.

Nessa parte de nossa viagem passaremos por uma área completamente diferente. Os rios são cheios de pedras e corredeiras. Aqui, o rio marca exatamente a divisa que limita a reserva indígena. Em algumas partes teremos ao nosso lado esquerdo a floresta fechada e ao lado direito as terras aradas de fazendas criadas com desmatamento. Nesta área têm se registrado conflitos, com os índios dizendo que têm sido atacados por fazendeiros, pescadores e garimpeiros agressivos.

Existem muitos insetos na aldeia Metuktire e somos mais umas das vítimas das picadas deles. Principalmente do pium, um tipo de mosca muito pequena cuja picada inflama e coça muito, e deixa uma ferida com uma casca escura no centro. Felizmente, o picum não transmite doenças como malária, mas eles picam pela manhã, à tarde e à noite.

Nossos repelentes fazem efeito apenas parcial. A proteção mais eficaz é a aplicação de uma camada espessa de um óleo usado pelos índios. As moscas morrem instantaneamente assim que entram em contato com o óleo. O único problema é que não consigo fazer praticamente nada, pois minhas mãos ficam tão escorregadias. Ontem, ajudei nosso anfitrião, o cacique Waiwai, a consertar seu barco. Tive grande dificuldade para manusear as ferramentas. Hoje olho para os meus pés e vejo que mais parecem dois potes de pimenta vermelha cheios de pontinhos pretos.

Esta aldeia também tem a formação tradicional com a oca dos homens bem no centro da taba. Na noite passada, ficamos bem no centro admirando o céu estrelado. O cacique nos explicou um pouco a cosmologia dos Kayapós, contou a história de amor entre a deusa Vênus e um guerreiro Kayapó e mostrou-nos a fila de estrelas que guia o crescimento das crianças Kayapós.

Metuktire é a aldeia mais próxima do local onde no ano passado caiu o Boeing da Gol, depois de se chocar com o jatinho executivo Legacy, causando a morte de mais de 100 pessoas. Os destroços do Boeing estão numa parte de difícil acesso da floresta e os índios da aldeia foram os primeiros a chegar ao local do acidente, desbravando uma trilha difícil bem pelo meio da floresta.

“As cenas eram terríveis. Logo percebemos que não haviam sobreviventes,” disse o cacique Waiwai, um dos primeiros a chegar ao local dos destroços. “Não havia muito o que podíamos fazer. Não tinha ninguém vivo, os corpos estavam por todos os lugares. Foi muito triste. Ficamos chocados. Queríamos ajudar, mas tudo que pudemos fazer foi abrir uma clareira na mata para que os helicópteros do exército pudessem pousar. Assim que eles conseguiram chegar ao local, nos mandaram embora.”

Segundo a tradição Kayapó, é muito importante que os mortos sejam enterrados de modo adequado. Eles acreditam que os espíritos dos antepassados continuam a viver na floresta. Os rituais de um funeral duram vários meses após a morte, e desta forma, a principal preocupação do grupo de índios que chegou ao local do acidente era que os corpos das vítimas fossem entregues às famílias para que pudessem ser enterrados.

A aldeia mais próxima é a dos Kremoros, que recentemente recebeu a visita de diversos índios que viviam isolados na floresta. A aldeia Kremoro fica a mais de um dia a pé de onde estamos, mas os Metuktire estão acompanhando pelo rádio a história dos índios que apareceram.

Há poucos dias, dois aviões de pequeno porte pousaram na área próxima à aldeia Kremoro levando sertanistas e autoridades da Funai. Infelizmente, a chegada os aviões assustou os índios que estão sendo readaptados e eles voltaram a se esconder na floresta. Desde então eles já reapareceram algumas vezes, mas ainda não voltaram para a aldeia. Anteriormente, eles disseram que tinham sido perseguidos a tiros por homens brancos, e portanto, é totalmente compreensível o medo que sentem.

Enquanto isso, na aldeia Metuktire, a tribo decidiu fazer uma festa para comemorar o nosso aniversário de casamento. No momento em que escrevo esse blog estou sentado na sala de rádio ao lado do cacique Waiwai, que já está com o corpo pintado para a festa. Ele tem linhas verticais, em tinta preta forte, que vão desde o pescoço até a cintura, além das pernas, pintadas todas de preto até a altura dos tornozelos. Eu e Sue nos sentimos honrados pela homenagem. Os Kayapós são um povo orgulhoso e confiante. Não é fácil conquistar seu respeito e ser aceito por eles.

A aldeia Metuktire é onde vive o cacique Raoni, que durante o começo dos anos 90 viajou por todo o mundo acompanhado do roqueiro Sting para divulgar a causa indígena e obter apoio para a demarcação da reserva Mekgranoti. Esta semana Raoni está no Japão. Ele continua na luta pelos direitos de seu povo. Em poucos dias estará de volta à aldeia, para morar na sua oca, terminada recentemente, feita de madeira e folha de palmeira. Se pudermos, vamos retardar nossa partida, pois da última vez em que estivemos com ele, prometemos visitá-lo, mas ainda não é certo em que dia ele chegará.

Nome
Idade*
Cidade
Paìs
E-mail
Telefone*
* opcional
Sua opinião/pergunta
Nota: a BBC Brasil se reserva o direito de editar e publicar os comentários recebidos, assim como utilizá-los em seus programas de rádio.
Índia (foto: Sue Cunningham)Aventura
Veja novas fotos da expedição no Xingu.
Crianças índiasProjeto Xingu
Expedição busca origens dos índios do Brasil. Acompanhe
LINKS EXTERNOS
A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo dos links externos indicados.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade