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Atualizado às: 01 de junho, 2007 - 19h42 GMT (16h42 Brasília)
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

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Novos velhos amigos (por Patrick Cunningham)

Há poucos dias, índios Kayapo, que até então não tinham mantido contato com os brancos, surgiram do meio da floresta. Eles queriam encontrar parentes que vivem na aldeia Kremoro. Apesar de estar a apenas 50 quilômetros do rio Xingu, nossa expedição não conseguiu chegar até a aldeia, pois não há acesso por terra, nem pelo rio.

O primeiro contato foi feito por dois índios que foram até a oca onde mora Bepro, filho de um dos Benajures (chefes da aldeia). Durante uma madrugada ele ouviu uns ruídos que vinham da parte de trás da casa e foi ver o que era. Encontrou dois índios que não conhecia. Eles pediram que Bepro os seguisse floresta a dentro. Ele começou a segui-los e chegou a conversar um pouco com eles, mas de repente ficou apavorado. Brepo não tinha levado sua lanterna e temeu que seus acompanhantes fossem os "índios selvagens" de quem tanto tinha ouvido falar, e que estariam mentindo para levá-lo para longe da aldeia onde poderiam matá-lo.

Alguns dias depois, os tais índios desconhecidos voltaram à aldeia e começaram a fazer os mesmos ruídos, atrás de uma outra oca. Desta vez eles voltaram para a floresta, sumindo antes que alguém pudesse vê-los.

Bepro e seu irmão, Beprytire, decidiram, contra a vontade do restante da aldeia, entrar na floresta e procurar pelos índios. Não demoraram a encontrá-los. Chegaram a conversar brevemente, e pela conversa acharam que os dois índios seriam Kayapos, apesar de falarem um tipo arcaico da língua dos Kayapos. Os dois índios estavam nervosos e amedrontados e perguntaram se índios de outras aldeias iriam matá-los. Beprytire disse que eles não corriam perigo, pois atualmente os Kayapos não guerreavam mais com outras tribos. Mesmo assim, os dois índios não se tranqüilizaram e voltaram a sumir no interior da floresta.

"Apesar de estar a 50 km do rio Xingu, nossa expedição não conseguiu chegar até a aldeia"

Gravação

Ao voltarem à aldeia, os dois irmãos foram recebidos com desconfiança. Eles resolveram então retornar à floresta no dia seguinte, desta vez levando um gravador. Conversaram novamente com os dois índios e conseguiram conquistar um pouco mais de confiança. Os dois índios disseram que sua gente estava assustada porque a floresta estava sendo destruída cada vez mais próximo da aldeia em que viviam. Eles tinham medo de virem a ser descobertos e serem mortos em seguida.

Quando retornaram à aldeia, Bepro e Beprytire tinham a gravação com a conversa para provar que a história era verdadeira e que os dois índios existiam mesmo. A aldeia ficou num estado de apreensão. Os índios mais velhos contaram histórias ocorridas na década de 50 quando três famílias se embrenharam na floresta depois de uma briga que dividiu a aldeia. Uma das famílias foi encontrada mais tarde. Todos seus integrantes estavam mortos em conseqüência de uma doença contagiosa, mas as outras duas famílias nunca mais foram encontradas. Será que estes índios seriam membros de uma destas famílias?

Os índios contataram por rádio o diretor regional da Funai, Benajure Megaron Txucarramae, e os índios da tribo começaram a tentar convencer seus parentes a voltar à aldeia. Aos poucos, eles foram atraindo os índios levando-os cada vez mais perto da aldeia. Outros índios foram se juntando ao grupo até serem 11 ao todo.

Os recém-chegados foram levados à cabana dos homens, que fica bem no centro da aldeia. A tribo decidiu que eles deveriam ter uma recepção tradicional, então resolveram pintar o corpo e dançar em homenagem aos visitantes. Isto acabou causando uma reação inesperada. Os índios recém-chegados começaram a chorar. Eles disseram que era como se estivessem retornando à vida após anos de isolamento na floresta.

Aos poucos outros índios foram surgindo da floresta e no dia seguinte já haviam 36.

Atualmente, Kremoro abriga 86 visitantes, todos falando uma linguagem estranha, um tipo de dialeto arcaico. Todos andam nus, sendo que os homens usam uma cobertura sobre o pênis e sete deles usam grandes discos labiais e as mulheres raspam a parte de cima da cabeça. Eles falam sobre parentes, mortos há muito tempo, que ficaram na aldeia quando partiram. Os moradores da aldeia estão felizes, mas ao mesmo tempo apreensivos. Os novatos já demonstram estarem mais à vontade, mas ainda falam somente com os dois irmãos que iniciaram os contatos com a tribo.

Os poucos índios da tribo Kremoro que vivem no vilarejo ficam atentos ao rádio que é a única forma de comunicação direta com a aldeia. Se emocionam, choram e ficam pensativos sempre que ouvem uma gravação com a voz de um dos índios recém-chegados ou com alguma música cantada por eles.

Emoção

Puiu Txucarramae, o segundo na hierarquia da tribo, chorou e deu um murro na mesa externando alegria: “Todos se emocionaram. Eu estava ouvindo e pensando: não, tenho que sair, isto está me tornando muito, muito triste. Tive que sair de lá, eles falavam num idioma muito antigo, fora de moda, as palavras que usavam eram muito boas, com um significado profundo. Me emocionou muito, tive que sair da sala do rádio, não agüentei mais ficar ouvindo, estava quase chorando."

Mesmo os mais jovens se emocionaram. Bep Txukarramae disse que "era como se fossem os espíritos de nossos ancestrais. Por causa da coragem dos nossos amigos que fizeram o primeiro contato, podemos agora ter a felicidade de recebê-los de volta na nossa aldeia no meio de nossa gente. Nossos avós nos contaram sobre a briga que dividiu a tribo muito tempo atrás e sobre as famílias que se refugiaram na floresta."

O irmão de Bep, Patxom Txucarramae, acrescentou que "após a separação, um dos grupos - no qual estavam nossos pais - foi descoberto pelo sertanista Orlando Villas-Boas. Mas o outro grupo, que é esse que apareceu agora, continuou vivendo completamente isolado no meio da floresta. Estamos muito contentes em saber que eles sobreviveram e retornaram depois de 40 anos. É uma sensação muito boa, afinal eles são nossos parentes. Eles sabem muita coisa que já esquecemos. A língua que falam é muito mais original do que a nossa. Quando os ouvi no rádio quase não compreendi o que diziam, mas meu tio conseguiu compreender muito melhor."

Os índios agora tentam evitar a repetição do desastre ocorrido com lamentável freqüência sempre que uma tribo é descoberta. Foi proibido terminantemente qualquer entrada ou saída de pessoal da aldeia, à exceção de uma equipe médica escolhida com extremo cuidado.

Ao terem vivido por tanto sem ficar expostos a infecções, esses índios não possuem proteção natural contra doenças comuns ao homem branco. Eles são especialmente vulneráveis a sarampo, gripes, pneumonia e catapora. Se infectados por uma dessas doenças, podem morrer em questão de dias. Até mesmo uma simples gripe pode ser fatal.

É, portanto, essencial que a confiança dessa gente, que foi difícil de ser conquistada, não seja agora traída pela introdução de uma infecção que pode acabar com o grupo. A equipe designada para fazer contato com os índios está tomando toda a precaução necessária para agir rápido caso seja percebida a ocorrência de alguma doença. Os índios serão vacinados como medida preventiva. Estas medidas deverão vigorar por vários meses - até mesmo anos - e com toda certeza, vão incluir períodos de cuidado intensivo para proteger os índios recém-chegados de eventuais surtos de doenças.

Esses índios que voltaram à aldeia depois de passarem vários anos escondidos na floresta vão atravessar um difícil período de adaptação à realidade do mundo moderno. Mesmo a simplicidade com que vivem os Kayapos da aldeia Kremoro é muito diferente do modo de vida que levavam até então e de que aos poucos irão se desligar.

Eu e Sue esperamos que um dia possamos visitá-los, sem a preocupação de estarmos carregando doenças corriqueiras que poderão exterminá-los. Mas por enquanto, desejamos tudo de bom a Benajure Bepkyre, a sua esposa, Bekwyjmrati, e a todos de sua tribo, nesse momento delicado.

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