|
Projeto Xingu: No Coração do Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu. Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo. Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura. Anteriores: Tribos (por Patrick Cunningham) À medida em que vamos conhecendo melhor o Parque Indígena do Xingu, à bordo de nosso barco “Coração do Brasil”, fica cada vez mais evidente que os povos do Xingu têm uma cultura extremamente intensa, diversificada e vibrante. Ao mesmo tempo em que há uma grande semelhança cultural entre as diferentes tribos, cada uma delas tem características únicas que revelam diferenças marcantes. Na primeira etapa de nossa expedição, visitamos a parte do parque conhecida como Alto Xingu. O atendimento médico fica a cargo do pessoal do Posto Leonardo, batizado em homenagem ao sertanista Leonardo Villas Boas, falecido em 1961. Os índios do Alto Xingu preservam costumes tradicionais e muitos deles ainda andam completamente nus, usando apenas colares e um cinturão de miganças ou de algodão trançado. Vários índios ainda pintam o corpo regularmente e praticamente todos eles participam das festividades das tribos, durante as quais pintam o corpo com tintas vermelha e preta. A população indígena do Médio Xingu é formada em parte por tribos que foram levadas para a região durante as décadas de 50 e 60. Estas transferências de tribos foram uma conseqüência dos problemas de saúde causados pelo contato dos índios com os homens brancos que tentavam colonizar as terras da região. Eles levaram doenças até então desconhecidas pelos índios.
Doenças como sarampo, catapora, varíola, gripe e até mesmo um simples resfriado, contaminaram milhares de índios, que não possuíam imunidade natural para combatê-las e portanto acabaram morrendo em grande número apenas alguns dias depois dos primeiros contatos com os caraíbas, como os índios chamam o homem branco. Os pajés, os experientes curandeiros tradicionais, não sabiam como lidar com as novas doenças. Quando o sertanista Orlando Villas Boas descobria comunidades atingidas pelas doenças trazidas pelos colonizadores, normalmente as tribos já estavam praticamente dizimadas e os poucos índios restantes se encontravam em péssimo estado de saúde. Muitas tribos chegaram a perder até noventa porcento de seus integrantes em poucos dias. Algumas inclusive desapareceram totalmente. Em alguns casos, tribos inteiras foram dizimadas tão rapidamente que não restou nenhum índio com saúde suficiente para enterrar os corpos dos mortos, que acabaram sendo devorados por animais selvagens e urubus. Diante deste quadro, a idéia do sertanista Orlando Villas Boas de abrigar os índios sobreviventes no Parque do Xingu, acabou sendo uma opção desesperada. Apesar da intenção humanitária da iniciativa do sertanista, muito mais índios acabaram morrendo durante a difícil transferência para a reserva. A equipe, que acabou criando o Parque do Xingu, contava apenas recursos precários e não tinha equipamento nem material médico necessário para o tratamento dos índios doentes. Nós ouvimos diversas histórias chocantes desse período contadas por índios nascidos antes da mudança das tribos para a reserva. Os Kaiabis formam atualmente a maior tribo do Médio Xingu, mas antes de se mudarem para o parque eles viviam na região do rio Teles Pires, onde já tinham mantido contato com seringueiros e fazendeiros durante cinqüenta anos. No passado, segundo relato do índio Guararu, um dos mais velhos da aldeia Três Irmãos, os Kaiabis usavam cabelo comprido e andavam completamente nus, com o corpo coberto apenas por pinturas e colares feitos com dentes de animais. Atualmente, eles usam roupas fabricadas em cidades, cortam o cabelo bem curto e pintam o corpo apenas durante as festas. Mas, apesar de todas as transformações, eles ainda mantêm uma cultura rica, baseada nas tradições da tribo. Seus hábitos, crenças e cotidiano ainda são claramente indígenas. Segundo Guararu, a tribo já foi muito maior. Ele contou que no tempo dos seus avós os Kaiabis viviam em numerosos grupos. Disse que existiam várias tribos que não casavam entre si. Segundo ele, uma das tribos era formada por índios de pernas e braços longos, gente com a pele escura. Eles eram chamados de "carvoeiros". Os índios da tribo de Guararu foram apelidados de "povos do tucum". O índio me disse que a origem do apelido é o fato de que os membros da tribo casarem com integrantes de outras tribos: "como a palmeira do tucum, podemos ser usados para diferentes finalidades". Atualmente, não existe mais esta distinção. Guararu disse que todos os Kaiabis são chamados de povos de tucum, "até nos casamos com índios de outras tribos". Atualmente, os caciques estão empenhados em recuperar aspectos culturais perdidos com o tempo. Eles visitam comunidades Kaiabis que vivem em outras áreas, estudam os desenhos e formatos de cestos e outros objetos de artesanato encontrados em museus e coleções particulares ao redor do mundo. Eles planejam cultivar plantas que servem de matéria-prima essencial para a fabricação de objetos próprios da cultura Kaiabi, e que dificilmente são encontradas na floresta onde vivem. Outras tribos que hoje em dia habitam o Médio Xingu viviam originalmente próximo aos limites da reserva, perto de onde está instalado o posto médico Pavuru. Depois da mudança, acabaram perdendo sua terra original. Nos últimos anos, os Kisedjes (ou Suya) e os Ikpengs (ou Txicão) vêm tentando retomar a posse das terras onde ficavam as antigas aldeias. Para tal, eles seguem o tortuoso caminho legal pelos meandros da Justiça brasileira, enquanto organizam ações afirmativas na forma de ocupação de fato. Os Kisedjes conseguiram que suas terras ao longo do rio Suya Missu fossem demarcadas. Agora, eles estão empenhados na gigantesca tarefa de recuperar a floresta destruída pela fazenda agrícola que terminaram por ocupar. Por sua vez, os Ikpengs ainda não conseguiram reaver suas terras na região do rio Jatobá. Em 1884 e 1887, o etnólogo alemão Karl von den Steinen realizou duas expedições nesta área. Naquela época, os Yudjas (ou Juruna) ocupavam a maior parte da região ao longo do rio Xingu, se estendendo desde onde hoje em dia se encontra o posto médico Pavuru até a região que atualmente é ocupada pelos Kayapos. Agora a área ocupada pela tribo se restringe ao Baixo Xingu. | LINKS EXTERNOS A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo dos links externos indicados. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||