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Atualizado às: 18 de maio, 2007 - 14h40 GMT (11h40 Brasília)
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

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As casas dos índios do Xingu (por Patrick Cunningham)

Os índios do Alto Xingu vivem em ocas, casas feitas de madeira com teto de palha. Em cada oca vive uma família com cerca de 30 membros. O tamanho varia muito, mas uma oca típica tem 16 metros de comprimento com 12 metros de largura e cerca de 6 metros de altura.

Uma equipe de cinco homens é capaz de construir uma oca em cinco meses, que terá uma vida útil em torno de dez anos. Depois disso, ela tem que ser completamente reconstruída, pois quando estiver na hora de substituir o teto de palha, a estrutura também já estará deteriorada.

Estacas formam estrutura das paredes de ocas no Alto do Xingu

Os primeiros elementos da estrutura a serem erguidos são os postes centrais, que variam entre três e cinco dependendo do tamanho da oca, tendo cada um de seis a nove metros de comprimento. Eles são fincados no chão, no centro da casa, e suportam o peso da armação do teto. Eles vão servir também de suporte para as redes usadas pelos índios para dormir. Sobre estes troncos é colocada uma viga de tamanho semelhante, cuja fixação exige um grande esforço e habilidade de engenharia.

Em volta destes postes, numa distância aproximada de seis metros são fincadas várias estacas que formam a estrutura das paredes da casa e que vão de servir de segundo suporte para as redes. É colocada uma estaca a cada um metro, e normalmente são fincadas vinte de cada lado.

Com os troncos fincados nos locais que ocuparão definitivamente, a armação da oca pode ser então finalizada. Para esta tarefa, são usados troncos mais finos e longos, de árvores mais jovens que crescem sob as mais altas e que em consequência são bem retilíneos e quase não têm galhos laterais. Estes troncos são cuidadosamente vergados e amarrados de modo a formar quatro ou mais elipses. As primeiras dessas elipses são colocadas no nível superior das estacas que formam as paredes, e as demais são colocadas mais afastadas e vão dar a graciosa forma arredondada do teto. O ajuste de cada uma dessas elipses leva semanas até que a forma final seja alcançada.

Em seguida, galhos mais flexíveis são amarrados às elipses, sendo que a base desses galhos é também fincada no chão. Eles vão formar a parte vertical das paredes. Eles são curvados a partir da base de modo a dar a forma abaloada do teto. Quando a casa é terminada, não se nota pelo lado de fora, nenhuma separação aparente entre o teto e a parede. No teto, ainda são colocadas horizontalmente diversas varas nas quais serão amarrados cuidadosamente os feixes de palha que darão sustentação e isolamento ao teto.

Com essa estrutura finalizada, a casa está pronta para receber o acabamento final do teto que normalmente é feito de sapê, um tipo de vegetação que cresce em abudância em diversos locais do parque. Alternativamente, o teto pode ser feito com folhas de palmeira. O teto é bem espesso e sua construção exige uma grande quantidade de sapê, que deve ser colhido e secado cuidadosamente. Por sua vez, cada feixe de sapê é dobrado e amarrado à estrutura.

Um dos lados do topo do teto é reforçado por uma estrutura extra feita por galhos alinhados no ponto em que a armação começa a curvar. Isto permite que haja ventilação no interior, tornando-o fresco e arejado.

Existem apenas duas aberturas em toda a estrutura, bem no meio de cada um dos lados mais compridos. Elas formam as portas, da frente e dos fundos, da oca. Atualmente, estas portas são feitas de madeira tratada e usam dobradiças de metal, mas ainda podem ser encontrados os tipos mais tradicionais feitos de pinos removíveis.

Quando acabada, a casa é bonita e graciosa, enorme como uma catedral. Normalmente, não há divisões nem cômodos no interior, a não ser nos casos em que é erguido uma espécie de biombo quando um dos adolescente da família passa por um período de isolamento. As redes dos membros da família são penduradas nos troncos centrais e nas estacas que formam as paredes. Durante o inverno, são acesas pequenas fogueiras em volta da área onde dormem.

A total falta de janelas torna o interior escuro para nós. Os índios, que não estão acostumados à iluminação artificial, enxergam bem no escuro e não têm nenhuma dificuldade para realizar suas tarefas diárias, mesmo com o tempo fechado.

Estas casas são ideais para as condições climáticas do Xingu, sendo quentes durante o frio das noites ao mesmo tempo em que mantêm o frescor durante o dia. As frestas existentes no teto de palha permite a livre circulação do ar retirando do interior a fumaça das fogueiras. A fumaça também ajuda a impermeabilizar a palha, reduzindo os estragos causados por insetos e outros animais da floresta.

Quando uma das ocas vai se aproximando do fim da sua vida útil, o chefe da família fica encarregado de reunir uma equipe de cinco homens dispostos a dedicar os cinco meses seguintes à construção de uma nova casa. O trabalho é duro e envolve longos deslocamentos para obtenção do material necessário e o transporte até a aldeia de grandes quantidades de madeira selecionada para a construção. Cada tronco deve ser ainda cuidadosamente preparado para que possa ser utilizado pela equipe.

Tradicionalmente, as casas não levam pregos ou qualquer outro material industrializado. As partes são montadas com auxílio da casca do tronco de uma árvore chamada imbira, que é muito forte, flexível, resistente e durável. Atualmente, se os índios não conseguem encontrar imbira na quantidade que precisam, acabam usando arame que compram na cidade mais próxima. O arame não é uma alternativa muito popular, uma vez que acaba cortando aos mãos dos construtores.

Quando uma casa é destruída por um incêndio, a família é abrigada temporariamente numa oca improvisada, onde os membros têm que viver apertados até que uma nova casa seja construída, que, dependendo do tamanho, pode levar até dois anos para ser concluída.

Há um ano e meio, nove casas da aldeia Yawalapiti foram destruídas por um catastrófico incêndio florestal espalhado por fortes ventos. Tem sido muito difícil para a aldeia tocar as tarefas cotidianas ao mesmo tempo em que as ocas são reconstruídas. Até agora, já foram finalizadas três casas, sendo que mais três serão terminadas até o final do ano que vem e as três restantes deverão ser concluídas no ano seguinte. Logicamente, isto tem tomado grande parte do tempo dos homens adultos e tem usado recursos importantes da aldeia, mas os índios estão determinados a levar adiante a construção que será feita de acordo com os padrões tradicionais.

Nós vimos diversas ocas tradicionais sendo construídas nas vilas que visitamos. Os únicos prédios de tijolos e telhas são as escolas e os postos médicos que atendem às aldeias. Os índios sabem que as ocas são a forma de construção mais adequada e confortável para as condições locais.

Por diversas noites, deitado no conforto e frescor de uma rede, me peguei pensando no calor abafado e no ambiente empoeirado que enfrentamos em Canarana. Talvez, devemos incluir os métodos de construção entre as várias coisas que devemos aprender com os índios.

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