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Atualizado às: 11 de maio, 2007 - 17h26 GMT (14h26 Brasília)
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

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Represas, soja e mais represas (por Patrick Cunningham)

Atualmente, a maior parte do território cortado pelo rio Xingu é composto de áreas protegidas: reservas indígenas, reservas florestais, reservas extrativas naturais e reservas ecológicas, entre outras. Mas as nascentes dos afluentes que abastecem o rio, tanto ao sul como a leste e oeste, encontram-se todas fora da região protegida.

Muitas dessas nascentes ficam em áreas que no passado pertenceram aos índios. Mas, durante a década de 60 eles acabaram sendo removidos, levados para aldeias mais próximas do centro do Parque do Xingu, onde poderiam ficar sob os cuidados dos famosos irmãos Villas Boas. Os índios mais idosos ainda se recordam das aldeias antigas. E agora, pelas leis brasileiras, os índios têm chance de retomar a posse da terra. Os índios Panara e os Kisedje (ou Suya) já conseguiram recuperar a posse das terras que tinham sido ocupadas por fazendeiros.

Desmatamento das terras em torno das nascentes afeta vida dos índios

A área ao redor do Parque do Xingu se encontra quase que totalmente tomada por agricultura, e o desmatamento das terras em torno das nascentes está afetando a vida dos índios. À medida em que a floresta vai sendo destruída, aumenta a quantidade de sedimentos, agrotóxicos e outros poluentes que vão sendo lançados no rio, envenenando os peixes e poluindo a água potável.

Recentemente, uma barragem que tinha sido construída no rio Tanguro, se rompeu, lançando nas águas do rio uma grande quantidade de agrotóxicos e sedimentos. Os índios que vivem na aldeia Tanguro contam que viram milhares de peixes mortos, boiando na correnteza rio abaixo. Eles foram aconselhados a não beber mais a água do rio.

Existem projetos de construção de outras seis represas para a instalação de usinas hidrelétricas em todos os afluentes do Xingu. Uma delas, a Paranatinga II, já está sendo construída no rio Culene, num local considerado sagrado pelos índios. A usina será construída exatamente no local em que foi realizado o primeiro Kuarup, o festival indígena mais importante, que reúne todas as tribos. É neste mesmo local que, segundo a lenda indígena, nasceu o primeiro índio. No local, existiu até a década de 60 uma aldeia da tribo Kalapalo.

Atualmente, a construção da represa está paralisada em virtude de uma ação judicial. Se as obras forem concluídas, a represa vai reduzir o fluxo de água no rio Culene, o maior afluente do Xingu. Se a construção for liberada, abrirá um precedente que facilitará a aprovação de novos projetos semelhantes.

Os caciques e todos os índios do Xingu estão muito preocupados com a construção destas represas. E têm motivos de sobra, como conta o cacique Arivirá Matipu.

“Esta série de usinas vai destruir nosso supermercado. Nossa principal fonte de alimentos é o rio. Nós não caçamos nem criamos animais para consumo. Só comemos peixe e o peixe vem do rio. O rio também nos dá a água que precisamos para irrigar nossa plantação de mandioca, com a qual fazemos o beju que comemos diariamente e também mingau, que bebemos todos os dias. Se a obra for liberada a represa vai matar o rio. E se o rio morrer não teremos mais o que comer, nós também vamos morrer e sem os índios a floresta não sobrevive.”

Em cada uma das aldeias que visitamos ouvimos sempre a mesma história. Quando perguntamos qual é a maior ameaça que vêem no futuro, os índios sempre nos davam a mesma resposta. “O que mais preocupa é a represa que está sendo construída no rio Culene.”

Os índios já podem sentir os efeitos da mudança no clima da região em conseqüência do desmatamento da área ao redor da reserva.

“Hoje em dia o calor é muito maior", diz Tata Yawalapiti, irmã do cacique Aritana. “Antigamente fazia frio nos meses de junho e julho, mas agora isso não acontece mais.”

As mudanças no clima também são sentidas pelo cacique Kotoki Kamayura: “As chuvas começavam a cair em setembro, e duravam até abril. Agora, só começa a chover mesmo em dezembro. Com certeza isso é por causa do desmatamento para plantar soja. Nos últimos dois, três anos, as florestas em volta do parque vêm desaparecendo rapidamente, já não sobra quase nada. É como se estivéssemos numa ilha de floresta cercada de soja por todos os lados, um mar de soja.”

Em conseqüência, o nível dos rios está mais baixo do que nunca, e as barragens das usinas vão diminui-los ainda mais.

A previsão é que as usinas forneçam energia para várias cidades da região, mas isso pode acabar não ocorrendo. O fim da floresta vai afetar ainda mais o clima, reduzindo as chuvas o que por sua vez vai acabar prejudicando o funcionamento das usinas. Projetos anteriores acabaram fracassando pelo assoreamento das represas e pela corrosão das turbinas. Atualmente, com o rápido avanço da tecnologia para captação de energia solar, faria muito mais sentido promover este tipo de geração de energia do que colocar em risco a vida de milhares de pessoas e destruir um sistema ecológico frágil e ameaçar o equilíbrio climático de toda bacia hidrográfica do Xingu.

Anteriormente, seis caciques das tribos do Xingu assinaram um documento concordando com a construção das barragens, mas agora, todos os seis disseram que não sabiam exatamente o conteúdo do documento e que o tinham assinado sob pressão. Eles disseram que agora, depois de conhecer o conteúdo do documento, percebem que foram enganados.

Recentemente, o local da construção foi palco de um protesto feito por representantes das tribos que vivem na reserva. Eles ocuparam o canteiro de obras e tomaram alguns operários como reféns. Os trabalhadores foram libertados dois dias depois, mas os indios destruíram equipamento e levaram alguns itens de valor, incluindo um carro que pertencia à empresa construtora. Isso acabou jogando a opinião pública contra os índios e prejudicou os processos que correm na justiça e que tentam impedir a construção.

O índio Ilukotu Ikpeng fala sobre a manifestação: “Não somos ladrões e não tiramos nada de ninguém sem termos uma boa razão para isso. Algum tempo atrás, nossas terras foram invadidas por madeireiros e tivemos que expulsá-los. Nós levamos o Toyota deles, pois eles tinham roubado nossas árvores e prejudicado nossa floresta. Ou seja, foi um ato justo. Aconteceu o mesmo com a represa, eles violaram nosso local sagrado e estão poluindo nosso rio que agora está cheio de sedimentos. Nós Ikpengs somos um povo guerreiro. Quando alguém nos ataca, revidamos. Quando meus filhos foram até a obra eu disse a eles para tomar coisas, para castigar a construtora pelo prejuízo que estão nos causando e para que pudéssemos nos recompensar de alguma forma. Se eles continuarem poluindo o rio, vamos voltar lá e tomar mais coisas, até que parem.”

Agora, a construtora está novamente contratando pessoal para reiniciar as obras. Mas a briga nos tribunais continua e existe uma possibilidade de que a obra venha a ser cancelada.

Recentemente, a organização não-governamental britânica Survival International lançou uma campanha contra a construção das barragens que afetam as comunidades indígenas brasileiras, incluindo a represa Paranatinga II.

Só posso torcer para que este projeto venha a ser abandonado definitivamente.

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