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Projeto Xingu: No Coração do Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu. Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo. Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura. Anteriores: Dia-a-dia no Xingu (por Patrick Cunningham) Acho que esse é um bom momento para falar um pouco sobre o nosso dia-a-dia por aqui e também sobre o equipamento que usamos na expedição. Nosso barco, o "Coração do Brasil", é uma voadeira de 7 metros de comprimento com casco de alumínio reforçado para suportar os choques com as pedras das corredeiras e cachoeiras que teremos que cruzar nessa próxima etapa. As chapas são soldadas o que garante maior resistência. O barco tem navegado sem problemas, movido por um motor de popa Yamaha de 2 tempos e 40 cavalos. Nosso equipamento eletrônico tem que ser recarregado constantemente e por isso temos no barco uma bateria que é abastecida por dois painéis solares flexíveis montados sobre o teto. Desde o início de nossa expedição temos um barqueiro local a bordo. O primeiro foi o Aparecido. Nativo de Canarana, Aparecido não é índio, mas conhece muito bem a região. Ele já trabalhou para a Funai e conhece bem os povos, as plantas e animais do cerrado. Em seguida, juntou-se a nós o Ari Matipu. Além de ser um barqueiro de primeira, Ari é um excelente pescador. Com ele a bordo nunca nos faltou peixe e a fartura sempre nos permitiu repartir o pescado com os habitantes das aldeias. Ari também foi nosso intérprete, explicando aos índios os objetivos de nossa expedição.
Os índios têm uma rotina alimentar toda própria. Eles não seguem nosso hábito de fazer 3 refeições a cada dia. Comem quando a comida estiver disponível. Na maioria das vezes comem à tarde ou à noite, mas nada impede que a refeição diária seja feita pela manhã. Se não houver peixe não há comida. Nós temos feito em média uma refeição por dia e algumas vezes damos sorte de comer algumas frutas nas aldeias. Uma refeição no Alto Xingu é bem simples; peixe grelhado na fogueira acompanhado de beju de tapioca, um tipo de panqueca ou pão, branquíssimo, feito de mandioca. Quando está fresco e quentinho, o beju é crocante por fora, mas depois de algumas horas fica meio macilento. Muitos brancos acham o beju de tapioca insuportável, mas para nós ele é o complemento pefeito para o peixe. Além de ser o componente de carboidrato da nossa dieta, a panqueca de beju serve de prato e talher nas refeições. Cada pessoa tira um pedaço grande de beju e com ele se serve do peixe. O beju é comido juntamente com o peixe. Ele também é consumido no café da manhã. Pode soar um pouco repetitivo, mas não consigo deixar de falar sobre a enorme variedade de peixe existente na região. E todos são deliciosos, até porque são consumidos tão frescos. Vez por outra, durante o dia, alguém prepara um mingau feito de farinha de mandioca. Ele pode levar ainda banana, pequi ou batata-doce. O mingau dos índios pode ser doce ou salgado e a consistência e o sabor podem variar muito de tribo para tribo. Não gosto muito do mingau que leva pequi. Ele tem um paladar bem amargo. Mas é muito popular em diversas tribos. A tribo Yudja (Juruna) do Baixo Xingu é a única a fazer o caxiri, um tipo de mingau alcóolico fermentado.
O beju de tapioca é menos comum nos Médio e Baixo Xingu. Os Kaiabi fazem beju de um tipo diferente de mandioca. Ele é amarelado e muito mais espesso. A comida alternativa é uma farinha de mandioca tostada de grãos grandes. Os índios pegam com as mãos um punhado de farinha e misturam-na com o caldo do peixe cozido. Também a comem espalhada sobre qualquer tipo de comida. Dormimos em redes, tanto nas ocas como nos postos médicos. Normalmente, é mais confortável dormir nas ocas, mas por outro lado tem-se pouca privacidade e se a família for grande temos que desarmar nossas redes ao acordar para não ocupar espaço. Para sentar usamos uns bancos baixinhos feitos de troncos de árvores cortados, que por vezes são trabalhados anatomicamente. O dia começa com o nascer do sol. Nosso despertador é o canto dos galos, o latido dos cachorros, o canto dos pássaros ou o ruído feito por outros animais criados na aldeia. Pulamos imediatamente da rede e vamos nos lavar no rio ainda coberto pela neblina matinal. A maioria dos índios do Alto Xingu está habituada a andar nu, portanto, eles demonstram uma curiosidade mínima pela nossa nudez. Algumas crianças riem da brancura de nossa pele, e acham ainda mais engraçada a brancura de nossas partes íntimas! Refrescados pelo banho matinal, retornamos à aldeia para organizar as coisas que vamos utilizar no restante do dia. Tarefa muito mais difícil para nós, pois nossos anfitriões só têm que colocar um short e já estão prontos para suas atividades diárias. Na aldeia, nosso dia é preenchido com várias atividades diferentes. Visitamos ocas, conversamos com praticamente todos os índios, visitamos as hortas, acompanhamos o trabalho dos construtores e dos artesãos. Vez por outra pegamos uma época de festa ou assistimos uma partida de futebol. Também aproveitamos para visitar as escolas e os postos médicos que existem nas aldeias. Participamos das festividades, pintamos nossos rostos com os desenhos e pinturas sugeridos pelos índios, e dançamos até as altas horas da madrugada. Sou bem alto, e com isso, me tornei muito útil na colheita de frutas. Os índios acham muito engraçado o meu pé, tamanho 47. Permanecemos pouco tempo na mesma aldeia, mesmo assim, as despedidas têm sido o momento mais difícil. Mesmo num curto período de tempo nos apegamos às pessoas. Eles se tornam amigos, mesmo que para nós, seus nomes sejam difíceis de memorizar e a barreira da língua seja um outro complicador. Mas os rostos, os sorrisos e a personalidade de cada um são muito fáceis de lembrar. Em todas as aldeias fomos recebidos de coração aberto. Os índios abrem as portas das casas e nos têm feito sentir parte de suas famílias. |
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