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Atualizado às: 29 de junho, 2007 - 20h55 GMT (17h55 Brasília)
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

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Jurunas e Kayapós (por Patrick Cunningham)

Depois que escrevi meu último artigo, ainda viajamos por mais um dia inteiro sem encontrar ninguém.

Entretanto, vimos vestígios de uma lamentável parte da história local. Passamos por vários cais que serviam de terminal para as diversas estradas abertas no meio da floresta para o escoamento de madeira de lei retirada ilegalmente das reservas indígenas.

Estes entrepostos podem ser facilmente identificados pela bagunça que os madeireiros deixaram para trás. Vimos um enorme pneu jogado às margens do rio, provavelmente de uma das máquinas usadas para arrastar as árvores pela floresta. Vimos também um pistão enferrujado de um motor a diesel, uma churrasqueira improvisada de metal, um pedaço de uma mangueira de borracha amarela e tiras de plástico preto usadas na cobertura dos barracões.

Felizmente, as estradas que vimos já tinham sido tomadas de volta pela natureza, com o mato voltando a ocupar a terra. Os madeireiros já abandonaram a área há bastante tempo. Não sabemos entretanto se a partida deles se deve a uma ação efetiva do governo ou se simplesmente não restou mais nenhuma árvore de valor comercial nesta parte da floresta.

Jurunas

À medida em que descemos o rio, Paulo Juruna, nosso barqueiro, nos mostrava os locais onde existiam aldeias Juruna, incluindo a aldeia onde ele nasceu e viveu durante a infância.

Duzentos anos atrás, esta região era dominada apenas pelos Juruna, um grupo étnico de índios pacíficos que montava suas aldeias principalmente nas diversas ilhas do rio. Mas eles eram constantemente atacados pelos violentos Kayapós, que acabaram por empurrá-los rio acima.

Quando o etnólogo alemão Karl von den Steinen navegou o rio Xingu em 1880, ainda existiam as aldeias Juruna. Ele chegou a negociar com os índios para adquirir novas canoas para sua expedição, e os barqueiros da aldeia prestaram uma grande ajuda dando informações valiosas sobre o rio.

Na década de 40, quando membros da expedição Roncador-Xingu, patrocinada pelo governo brasileiro, fizeram contato com os índios da região, os Juruna já tinham se deslocado rio acima, indo para o Estado do Mato Grosso. Atualmente, muitos Jurunas vivem em cidades localizadas no Estado do Pará, mas ainda existem muitas aldeias tradicionais da tribo dentro do Parque do Xingu. A maior delas é a aldeia de Tuba Tuba.

Os Juruna foram muito simpáticos e nos ajudaram muito. Eles são muito alegres. Em Tuba Tuba, Sue dançou até altas horas da madrugada com as mulheres da tribo.

Os índios Juruna querem voltar à antiga região em que viviam, que hoje em dia se localiza dentro da Área Indígena Mekragnoti, da tribo Kayapó. Atualmente, os diferentes grupos étnicos se relacionam entre eles de forma mais pacífica. O plano dos Juruna conta inclusive com o apoio dos Kayapó.

Se for concretizado, o plano vai permitir a reunião de diversos grupos Juruna que hoje em dia se encontram espalhados em dois Estados e vai acabar com os problemas que os índios enfrentam atualmente por terem que viver nas cidades.

A reunião também vai reconstruir e reforçar a cultura tradicional que ficamos conhecendo em Tuba Tuba. Com seus festivais cheios de cores e com uma pintura corporal distinta, os Juruna podem vir a se tornar um símbolo da cultura e integração do Pará.

Linhas pretas

Após passarmos dois dias sem ver ninguém, chegamos à aldeia Pukarankre, da tribo Kayapó. Localizada na base de uma colina íngreme ao lado de um pequeno afluente o rio Xingu, a aldeia fica encoberta por uma ilha fluvial coberta por uma floresta densa.

É uma aldeia tradicional com pequenas ocas de madeira e barro com teto de palha. Dançamos junto com os índios, cantando e acompanhando com eles o compasso rítmico da sua música e pintamos nossos corpos com os motivos que usam tradicionalmente.

Sue foi levada por duas índias sorridentes, voltando em seguida com os dois braços cobertos de linhas pretas numa típica pintura Kayapó.

À noite, foi a vez das jovens e dos guerreiros solteiros. Eles cantaram e dançaram. Ficou claro que o ritual é uma grande oportunidade para a interação social, permitindo que os jovens paquerem e se divirtam. Isso me fez pensar como nossa sociedade tem perdido muito com o desaparecimento de eventos deste tipo.

Lamentavelmente, na época atual, dominada pela televisão e pelo computador, os adolescentes têm muito menos oportunidades de se reunir num ambiente alegre e seguro. Para mim, foi um grande prazer ver os jovens índios se divertindo intensamente. Mais para o final da festa, percebemos que era hora de deixar os jovens sozinhos e fomos deitar em nossas redes, mas a festa ainda continuou por muito tempo!

Machucado

No nosso último dia na aldeia decidimos escalar um morro para apreciar a vista lá de cima. Perto do topo, eu perdi o equilíbrio, escorreguei e caí, machucando seriamente minhas costelas.

Cheguei a pensar que poderia ter quebrado uma ou até mais de uma. Agora estou tomando regularmente analgésicos, mas ainda sinto muitas dores quando me viro e não consigo levantar nada que seja um pouco mais pesado.

Chegamos à cidade de São Felix do Xingu. Agora posso repousar por uns dias e aproveitar para trabalhar no computador.

O hospital da cidade possui um aparelho de raio-x, mas o médico me disse que estavam esperando há algum tempo a chegada dos produtos químicos necessários à revelação das chapas.

Num lugar como esse, onde existe um grande número de motos andando por estradas muito irregulares, a falta deste equipamento deve dificultar muito a vida do único ortopedista.

A expedição Coração do Brasil é patrocinada por: Royal Geographical Society, Rainforest Concern e Artists Project Earth.

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