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Projeto Xingu: No Coração do Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu. Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo. Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura. Anteriores: E a história continua (por Patrick Cunningham) Poucos dias atrás, representantes da Funai chegaram em Metuktire vindos da aldeia Kremoro. Eles nos trouxeram informações recentes sobre a situação por lá. Pelos relatos, a presença na aldeia de um numeroso grupo de índios Kayapós que vivia isolado na floresta, não é confirmada. Na verdade, apenas três índios devem ter ido à aldeia. Os únicos que disseram ter visto esses índios foram os irmãos Beprytire e Bepro, que insistiram com o resto da tribo para que ninguém tentasse se aproximar da oca em que o grupo supostamente estaria. No final, eles disseram que os três índios voltaram a se esconder na floresta porque ficaram amedrontados com a chegada de um avião, e não deixaram nenhum vestígio que pudesse comprovar sua estada. A única coisa que restou foi o registro das vozes dos índios. As gravações, feitas entre 27 e 31 de maio, foram levadas para a sede da Funai, em Brasília, para que fossem analisadas. Este exame poderá possibilitar que se determine o número exato de índios, eliminando qualquer exagero que tenha sido acrescentado pelos dois irmãos. Se a história toda for falsa, representará lamentavelmente um enorme desperdício dos escassos recursos da agência do governo. Mas uma fonte da Funai disse acreditar que houve contato, mas que houve um exagero dos fatos relatados a partir daí. Hélice quebrada Nós partimos da aldeia Metuktire anteontem. Atravessamos as duas corredeiras mais difíceis, a Von Martius e a das Pedras. O rio de águas tranqüilas em que navegamos no começo da viagem ficou para trás, daqui para a frente o leito do rio é cheio de trechos pedregosos estreitos, que são especialmente perigosos nesta época do ano. Na temporada de seca, esses estreitos ficam facilmente visíveis e, durante as chuvas, a profundidade do rio permite a navegação tranqüila. Mas, nessa época do ano, a água cobre toda a largura do rio, deixando as perigosas pedras escondidas logo abaixo da superfície. A água faz espuma e redemoinhos ao passar pelas pedras, produzindo um ruído alegre e relaxante, apesar de todo o perigo que esconde. As corredeiras dão a falsa impressão de não serem muito fortes, mas a correnteza que produzem e as pedras que mantêm escondidas são imprevisíveis. Uma dessas pedras quebrou uma das pás de nossa hélice, desequilibrando o barco. Nós temos uma hélice reserva, mas decidimos não usá-la para não correr o risco de voltar a ter o mesmo problema nas várias corredeiras que ainda teremos que enfrentar e ter que terminar nossa viagem a remo. Aqui, o rio é de uma beleza extraordinária. Ontem passamos por diversas ilhas e entre elas várias pedras enormes e grandes blocos de terra. De vez em quando cruzamos com uma praia fluvial. Me sinto constantemente perplexo pela maravilhosa experiência. Aqui, bem no meio de um país moderno, passamos ontem o dia inteiro cruzando um de seus maiores rios, numa região de extrema beleza natural - e durante todo o tempo, não encontramos uma só pessoa. No momento em que escrevo, estou sentado numa pequena ilha de areia, apreciando a manhã. À minha volta, a bruma cobre o rio como um cobertor, com a floresta aparecendo aos poucos como um muro verde em cada uma das margens, com o topo das árvores ainda escondidos pela neblina. Paulo, nosso barqueiro, um índio Juruna, já está em franca atividade. Ele acabou de pescar um grande tucunaré, garantindo nossa refeição. O peixe já está sendo grelhado na fogueira e aguardamos ansiosos pelo banquete. Ontem o prato foi piranha assada, que é cheio de espinhas e não é tão saboroso como o tucunaré. Jacaré e antas Na noite passada, fomos acordados diversas vezes pelos barulhos feitos pelo nosso vizinho, um jacaré de médio-porte, toda vez que mergulhava atrás de alguma presa. Hoje pela manhã fomos investigar seus movimentos. Suas pegadas indicavam que ele não chegou a se afastar muito da beira do rio. Na noite anterior, nosso acampamento recebeu a visita de duas antas, que subiram na ilha tendo nadado desde as margens do rio. Elas não demoraram muito. Logo nadaram de volta. Não chegamos a vê-las, mas pudemos ouvir os ruídos e pela manhã conseguimos identificar as suas pegadas a apenas uns 20 metros de nossa barraca. À medida em que descemos o rio cruzamos com várias tartarugas e vimos vários peixes pulando na água. Por um tempo, fomos seguidos por um enorme pássaro que foi planando sem o menor esforço ao nosso lado, para em seguida mergulhar em busca de alimento, aproveitando-se da fartura de peixe oferecida pelo rio. Olho para mim sentado nesta ilha e me sinto à vontade com meu notebook no colo, digitando no teclado sem parar, mas as picadas de pium me relembram que estou na verdade no meio da natureza. Meus pés ficaram cobertos de feridas durante a estada em Metuktire, e agora o mesmo acontece com minhas pernas. A coceira está se tornando insuportável. Quando estamos em movimento, o vento produzido pelo deslocamento do barco alivia meu sofrimento, mas no momento em que paramos, os insetos começam imediatamente a devorar minhas pernas. A decisão é simples, ou protegemos nossos corpos vestindo blusas de manga comprida e calças, ou aturamos as picadas, pois nosso repelente não faz o menor efeito. Provavelmente, o anúncio do fabricante do repelente ainda não chegou a ser visto pelos insetos que vivem por aqui. |
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