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Atualizado às: 17 de julho, 2007 - 21h03 GMT (18h03 Brasília)
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Projeto Xingu: No Coração do Brasil
Fotos: Sue Cunningham

Sue e Patrick Cunningham estão realizando uma incrível aventura pelo coração do Brasil. Os dois ingleses começaram, no dia 2 de abril, a navegar com um pequeno barco por toda a extensão do rio Xingu.

Eles calculam que a viagem dure entre quatro e cinco meses e esperam observar como os povos indígenas da região estão vivendo e também avaliar o impacto das mudanças provocadas pelo homem e pelo aquecimento global em uma das maiores reservas naturais do mundo.

Regularmente, Sue e Patrick vão se comunicar com a BBC Brasil por meio de um telefone via satélite para relatar a sua aventura e responder algumas perguntas dos internautas

Mande seu comentário no quadro ao lado e acompanhe aqui nesta página a aventura.

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A aldeia A-Ukre e a Body Shop (por Patrick Cunningham)

Para chegar à aldeia Kayapó de A-Ukre tivemos que pegar um avião. A verba que temos para custear a expedição é pouca e não nos permite alugar um avião. Mas fomos apresentados ao Pereira, que administra a empresa de táxi aéreo PEMA, baseada em Ourilândia e é utilizada pelo serviço índígena de atendimento médico.

Quando explicamos os detalhes da nossa expedição, ele pediu que um de seus filhos, o Fernando, nos levasse até A-Ukre em um de seus aviões e ficasse nos esperando até que terminássemos nossas reuniões com os índios. Pereira nos deu um grande desconto que tornou o preço da viagem acessível.

Nosso pequeno avião decolou do campo de Ourilândia, que fica bem perto de Tucumã. Sobrevoamos uma extensa área de centenas de quilômetros praticamente toda desmatada, na qual as árvores tinham sido derrubadas e queimadas, aparentemente para a criação de pastagem para gado.

O curioso é que vimos pouquíssimo gado nesta área. Ficamos nos perguntando então porque as árvores tinham sido derrubadas e queimadas? Com que finalidade tinha sido sacrificada a tão preciosa herança natural que é a biodiversidade do território brasileiro?

Casas de aldeia Kayapó são dispostas em um quadrado

Parece que os proprietários de terra estavam apenas interessados em fazer dinheiro rapidamente ao revender a terra que, infelizmente, tem muito mais valor se dela tiverem sido retiradas suas riquezas naturais. Este tipo de negócio é feito em grande número e, em muitos casos, a propriedade da terra não é genuína, pois apenas 25% dos terrenos e fazendas do Estado têm escritura de posse legalmente registrada.

Depois de voarmos por muitos quilômetros, chegamos à divisa da reserva Kayapó, onde a terra nua deu lugar à mata fechada, um rico tapete verde de floresta contínua que se estendia até o horizonte bem na nossa frente.

Nosso avião mergulhou na direção da copa das árvores, com o piloto procurando pelo pequeno "ponto de exclamação" que era nosso campo de pouso. Assim que o avião terminou de pousar, fomos cercados por rostos de índios curiosos que nos levaram imediatamente ao centro da aldeia.

Essa era uma das duas aldeias envolvidas no projeto da empresa Body Shop para produção e comercialização de óleo de castanha do Pará. Apesar de ter sido encerrado há dois anos, o projeto teve um efeito positivo na aldeia por ter conseguido criar para os índios uma atividade econômica alternativa, evitando que acabassem envolvidos nas negociações de madeira de lei com as empresas madeireiras.

Assim, a aldeia conseguiu ficar livre dos efeitos negativos dessas negociações e, pelo que vimos, os índios têm vontade de retomar a produção de óleo de castanha. Foi ótimo perceber esse espírito empreendedor independente, ao contrário do que vimos em outras aldeias Kayapó, onde só ouvimos reclamações e pedidos por dinheiro.

O problema é que o mercado para óleo de castanha do Pará é bem limitado e, desde o término do projeto da Body Shop, não apareceu outro comprador interessado em pagar o preço que justifique o elevado custo de transporte do óleo produzido na aldeia, que durante a maior parte do ano só pode ser feito por avião.

Atualmente, os índios não contam mais com o dinheiro da venda do óleo que era gerada pelo projeto e, até então, não conseguiram encontrar uma receita alternativa, o que faz a aldeia passar por dificuldades. Durante muitos anos, eles ficaram acostumados a um determinado poder de compra e a readaptação tem sido difícil.

 Sem um mercado que seja viável a longo prazo, a aldeia jamais se tornará auto-suficiente e os índios não terão capacidade de se beneficiar da crescente relação que mantêm com a cultura brasileira dos grandes centros urbanos.

Mas pelo menos esses índios não foram deixados totalmente dependentes e incapazes de tocar sua própria vida, como ficaram os índios das aldeias que negociaram com os madeireiros durante um longo tempo. Pelo menos, aqui, nós encontramos um pouco de esperança para o futuro, mas os índios vão precisar de ajuda para achar uma fonte alternativa de renda.

Ou encontram um novo comprador para o óleo, ou descobrem um novo produto que possam vender por um preço que cubra os custos de transporte até o mercado consumidor. Sem dinheiro, sem dispor de meios de comunicação e com pouco conhecimento do mundo dos negócios, eles têm pouca chance de encontrar o que precisam.

Coração partido

Há cerca de 15 anos, Sue esteve diversas vezes na aldeia A-Ukre. Naquele tempo, a aldeia estava cheia de otimismo para o futuro. Era uma aldeia montada na formação tradicional, com as ocas de madeira e teto de palha dispostas em círculo. Tinha uma cultura vibrante e rica.

Atualmente, as casas de A-Ukre são dispostas em um quadrado, são idênticas, têm teto em forma de calha e ficam bem próximas umas das outras, com poucos índios mais tradicionais ainda vivendo em casas de barro e palha localizadas no lado de fora do quadrado, onde ficava a antiga taba circular.

A aldeia tem um certo ar derrotista, com a aparência de um local perdido, desorientado, que não tem condição de reencontrar por si só o seu próprio rumo.

Existem diversas pessoas tentando ajudar, mas o que falta na verdade é alguém que possa encontrar uma forma de comercializar a produção de óleo de castanha do Pará.

Sem um mercado que seja viável a longo prazo, a aldeia jamais se tornará auto-suficiente e os índios não terão capacidade de se beneficiar da crescente relação que mantêm com a cultura brasileira dos grandes centros urbanos.

Deixamos A-Ukre com o coração partido e com a mente cheia de incertezas. Por um lado, foi bom para Sue rever a aldeia e reencontrar velhos amigos, mesmo que em uma visita curta.

Mas, por outro lado, sentimos que o progresso trazido pela ligação com a Body Shop foi limitado e, de certa forma, apenas transitório, uma vez que acabou revertido rapidamente após o fim do projeto.

A aldeia nunca teve capacidade de desenvolver uma operação comercialmente viável e, na verdade, o projeto acabou não dando aos índios oportunidade de desenvolver uma capacitação da qual poderiam vir a se beneficiar no futuro.

No momento em que o avião se preparava para decolar na pequena pista, eu e Sue ficamos com os olhos cheios de lágrimas. O preço que tivemos que pagar pelo vôo fez com que nossa visita à aldeia acabasse sendo de apenas algumas horas, o que deixou Sue muito triste.

Eu, que apesar de estar visitando A-Ukre pela primeira vez já conhecia muitos índios por fotografia, senti pena de não ter estado aqui antes e uma certa tristeza pela difícil situação em que a aldeia se encontra atualmente.

Nosso pequeno avião ganhou altura e logo deixou para baixo o tapete verde formado pelas árvores da parte da floresta que ainda é protegida pelos índios. Um pouco depois, pudemos testemunhar o que poderia acontecer com a área caso os índios não estivessem mais vivendo por aqui. Vimos uma enorme área desmatada na parte norte da reserva.

Nosso piloto explicou que a área tinha sido invadida há uns dez anos pela expansão irregular de uma fazenda e, somente dois anos atrás, o governo federal agiu aplicando a lei, e acabou expulsando os invasores. Mas aí não restava uma única árvore no local. Deve levar muito tempo até que a floresta volte a reocupar a área.

A expedição Coração do Brasil é patrocinada por: Royal Geographical Society, Rainforest Concern e Artists Project Earth.

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