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Atualizado às: 27 de fevereiro, 2006 - 08h17 GMT (05h17 Brasília)
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Fajutos quentes
Ivan Lessa
Não sou admirador do chamado New Labour, o novo Partido Trabalhista britânico, que é, no meu entender, o velho Partido Conservador da senhora dona Margaret Thatcher, só que com novo rótulo.

Mais uma questão de griffe do que de conteúdo.

Mas, já que estamos nos rótulos, um deles me despertou a atenção, semana passada, e passei a, pelo menos, admirar a parlamentar neo-laborista Kate Hoey.

Por quê? Pelo seguinte: o jornal conservador Daily Telegraph noticiou que a distinta comparecera a determinada função usando “um relógio Gucci e uma jaqueta debruada de pele animal falsa”.

Na melhor tradição britânica, Kate Hoey mandou carta para o jornal.

Insistiu ela em dois pontos apenas: o relógio Gucci era falso, a pele animal, verdadeira.

A confissão – só pode ser encarada como confissão – criou uma razoável troca de cartas e opiniões diversas na imprensa britânica que não apenas no órgão conservador.

Para o olho leigo, um relógio Gucci ou Rolex, uma bolsa Prada ou Dolce & Gabbana, um par de sapatos Manolo Blahnik ou das casas Clark, dá tudo isso na mesma.

Estou falando, claro, deste olho leigo que vos fala, se me permitem embrenhar-me por território surrealista (ou será Dada?).

Gangue do Rolexz

Dá tudo na mesma. Nunca reparei nessas coisas.

Meu relógio marca as horas, os dias, o mês, funciona também como cronômetro e atende pela doce marca que é Timex, tendo custado uma ridicularia há mais de 15 anos, e só tive de mudar de pilha três vezes.

Eu jamais usaria um Rolex ou qualquer coisa no pulso esquerdo que pesasse mais do que minha mão direita.

Essa minha displicência não é apenas uma faceta melindrosa da pretensão, que isso existe e mais do que se pensa.

Tomo meu banhinho, boto minha roupa limpinha e vou ao mundo procurando chamar o mínimo de atenção.

Inclusive porque gente muito vistosa, aqui como aí, acaba assaltada.

Ainda age em Londres “gangue do Rolex”, que vai firme e feio naqueles que prestigiam a renomada marca que eu nem sei se é suíça ou não.

O que importa é que o fajuto está na moda.

O “caso” Kate Hoey trouxe à tona o fenômeno que todos sabiam e comentavam à boca pequena (é, essa gente que liga para essas coisas tem uma boquinha que só vendo), ou seja, não tem nada demais, inclusive é altamente recomendável o uso de imitações baratas de originais caros.

Aqui no Reino Unido, o mercado negro do fajuto, calcula-se, movimenta mais de US$ 15 bilhões anuais.

O que é chato para a indústria de verdade e sensacional para a fajuta.

Livre iniciativa é isso aí: dar quase grátis em malinha de camelô aquilo que custa uma nota nas vitrinas.

Duas coisinhas me parecem que pegaram mal na história da ilustre parlamentar Kate Hoey: primeiro, não devia usar pele animal de verdade, e, segundo, não se gabar em hipótese alguma do fato.

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