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Atualizado às: 17 de fevereiro, 2006 - 10h23 GMT (08h23 Brasília)
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Pedras que rolam
Ivan Lessa
Eu gosto dos Rolling Stones. Eu gosto do Mick Jagger.

Qualquer cidadão britânico branco e de classe média que consiga cantar mais ou menos feito preto velho americano morto merece minha admiração.

Anos 60 e, aqui por estas ilhas, era um tal de "se deixar influenciar" que não acabava mais. Tinha garotão na esquina pedindo pelo amor de Deus licença para se deixar influenciar por pessoas como John Lee Hooker, Muddy Waters, T-Bone Walker e Lightnin´ Hopkins, tudo gente boa dos "blues" americano.

Afinal, era de graça, não tinha que pagar direitos e, dos cantores mencionados, já estava ou tudo morto ou morrendo.

Muita gente foi direto às raízes: loja de disco importado. Chuck Berry animou a festa com uma (arram!) pitada de "roquiendirôl", deixando-se ser baseado, no outro sentido, uma vez que nem ele nem ninguém sabiam direito o que é que estava acontecendo.

'Boom'

O que estava acontecendo era um tremendo "boom". E mais "boom", "boom", "boom", como se descompassavam os bateristas das bandas do roque.

Granolina da boa para todo aquele que bolar um macete e dominar pelo menos dois acordes em guitarra elétrica.

Fora descoberto, ou criado, um novo consumidor: o garoto entre os 14 e os 18 anos, esse mesmo que, com uma ou outra modificação, continua a ser o freguês por excelência ("Vai levar o CD, excelência?") da chamada música pop contemporânea e das superproduções cinematográficas americanas.

Sábado, dia 18, de noite, em Copacabana, no Rio, vai ser – foi – dado, "de graça", afirmam, o grito oficial do Carnaval 2006, para os ouvidos sensíveis de, segundo as folhas, mais de 1 milhão de pessoas, à beira-mar, porém sem banho ou fantasia.

O berro virá dos grandes lábios sensuais (ele é todo lábios, o resto excrescência secundária; uma espécie de super-Iracema do hemisfério norte) de Mick Jagger. Ele até hoje simpatiza com o demo e não consegue ter o raio da satisfação.

O esquema "Rock in Carnival" é uma gentileza da prefeitura do Rio que investirá R$ 1.684.500,00, mais a segurança que 10 mil polícias militares inspiram e a privacidade que 200 banheiros químicos garantem.

Alguns detalhes dão uma idéia do "modus excursionandi" da banda: suítes de luxo para cada membro no Copacabana Palace, todas equipadas com o que há de mais sofisticado em matéria de acessórios roqueiros, da água mineral específica às mesas de bilhar, sem esquecer de uma grande variedade de chás (gíria nova?), balas de menta e, claro, um restaurante japonês, que ninguém vive sem eles.

Estranho é a rapaziada sessentona exigir também blocos de papel e canetas. Qual é? Vão fazer ousadas charges políticas? Anotar súbitas inspirações?

Enquanto isso, num pardieiro, Jamelão, 92 anos incompletos, passa mal, ninguém quer ser influenciado por ele, e Mangueira, Salgueiro, todas as escolas aguardam nas coxias de fevereiro sua velha hora de existir.

Podem esperar sentados no meio-fio. Carnaval acabou. Não dá DVD à venda nas boas lojas do ramo na quarta-feira de cinzas. Uma pobreza, em suma.

Além do mais, carioca ou brasileiro não acha mais a menor graça naquilo que foi um dia o "tríduo momesco". Não dá, em suma, dinheiro, além de não proporcionar mais qualquer espécie de alegria ou divertimento a ninguém.

O que vai pegar esse ano, de novo, já que recordar é viver, conforme atestou de certa feita um sambinha, é Little Red Rooster, do "blueseiro" Howlin´ Wolf, devidamente apropriada há algumas décadas por essas pedras que rolam, rolam e – por que não dizê-lo? – enrolam.

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