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Atualizado às: 03 de fevereiro, 2006 - 09h19 GMT (07h19 Brasília)
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O bom, bom Bono
Ivan Lessa
Ninguém pode dizer que Bono seja o mais desprezível ser humano na face da Terra. Como ninguém pode dizer também que Bob Geldorf, seu conterrâneo ilhéu gaélico, seja igualmente um dos mais desprezíveis seres humanos na face da Terra.

Ser humano, que ninguém nos ouça, é tudo meio desprezível. De maneira mais específica, os mais desprezíveis podem ser encontrados nos meios dos homens públicos de vida airada.

Cabe no entanto a pergunta, não de todo desprezível: porque é que Bono está sempre tirando fotografia com esses homens públicos de vida airada?

É presidente desse país aqui, é primeiro-ministro daquele país ali, é isso, é aquilo outro.

O porquê dos óculos registrados do roqueiro irlandês, além de servir de macete, “gimmick” para virar marca registrada?

Os óculos escuros são para proteger os fotógrafos e circunstantes das chamas, das faíscas, dos raios que seus olhos emitem, como se fosse o segundo ou terceiro herói de um grupo de quatro das histórias em quadrinhos boladas pelo Stan Lee. Nada tem a ver com proteção dos “flashes” das câmeras espoucando a seu redor.

Ele se transforma. Como Super-homem na cabine telefônica, como Batman na bat-caverna. Tudo para proteger sua pobre, sua verdadeira identidade: Paul Hewson, irlandês de Dublim, nascido no dia 10 de maio de 1960.

Ele vai, enrouca e enegrece a voz, toma da guitarra e a garotada do mundo inteiro enlouquece. Ele é ou não o maior?, perguntam como se o homem fosse também uma super-Emilinha ou super-Marlene deste Século 20.

Pobre Marlene e pobre Emilinha, que hoje em dia seriam salvas por Bono das malvadezas do mundo e com toda a certeza conseguiria ainda que ambas se mantivessem acima não só da linha da pobreza como beirando a linha logo acima da remediada.

Não há celeuma em torno de Bono. Ele é unanimidade. Bush, Clinton e mais de um Papa não o consideram, em hipótese alguma, o ser humano mais desprezível na face da Terra. Muito pelo contrário. Ele é o Bom, o Máximo, o Quente, o Jóia.

De todas as celebridades a adotarem causas, Bono foi mais longe, e de longe, o mais audaz: não basta salvar a baleia nem lutar contra o arrefecimento (ou é esquentamento? Essas coisas me confundem) global.

É preciso ir mais longe e salvar o mundo. De tudo. Da doença, da fome, da miséria, da unha encravada, do medo de dentista. A humanidade vive muito mal, está sempre se queixando de uma coisa ou de outra e, para lutar por ela, há nos quatro cantos do globo terrestre, um roqueiro irlandês disposto a enfrentar não importa que dragão de que maldade.

Só mesmo um canalha com C maiúsculo diria que Sono, o Bom, o grande Bono, é um dos seres humanos mais desprezíveis na face da Terra. Não é, não. De jeito nenhum.

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