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Atualizado às: 09 de janeiro, 2006 - 11h13 GMT (09h13 Brasília)
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Bebericagens
Ivan Lessa
Eu coleciono refrigerantes. Mais: são meio obsessão minha.

Feito com o capitão Ahab, em “Moby Dick”, do Herman Melville, eu tenho minha baleia branca e, de abridor na mão em vez de arpão, do alto da proa ou bem à frente da popa de minha vida, estou sempre atento à xaropada (gasosa ou não) que dará, finalmente, sentido à minha vida, dela fazendo - bebido pelo gargalo ou em copo -, um resumo final que tudo explique e justifique.

É complicada minha predileção por um guaranazinho, um refresco de groselha ou uma “vaca preta” de “root beer” (não adianta procurarem; esse não pegou no Brasil), se vale o acréscimo de sorvete em minha busca – digamos, beirando a verdade – insaciável.

Também não darei nome aos refrigerantes que, no momento, minha geladeira abriga. Sim, nela eu preciso ter pelo menos 3 tipos diferentes. Todos os dias. Não digo quais porque a BBC franze o cenho para merchandisings.

Ah, sim, eu ia “se” esquecendo: suco de laranja não vale, não conta como refrigerante. Suco de laranja só de manhã e para me ajudar a tomar a remediarada habitual, que nada tem a ver com meus gostos, mas sim o compasso de meu coração e o fracasso de meus pulmões, tal e qual sucede nas canções populares.

Aí vale o parêntese: o suco de laranja já foi baleia branca minha. Cansei de procurar o suco de laranja ideal. Até os anos 70, era o do restaurante do Museu de Arte Moderna, no Rio. Aqui em Londres, há coisa de uns anos, dei com o danado do suco de laranja perfeito, tão longamente desejado e procurado – era e é de produção comercial e não doméstico-artesanal. Saco de anti-clímax! Como se o romance de Melville acabasse com Ahab domando a baleia para, em seguida, desaparecer com ela no horizonte e, então, viverem felizes para sempre.

Suco, pois, não vale. Meu negócio, como deve ter ficado claro, é refrigerante.

Descubro, no entanto, inda que tarde, que se trata de coisa pessoal demais e não deve ser abordada diante de estranhos. Não está mais aqui quem falou. Ou cantarolou o velho jingle: eu vou ali, já volto já, estou com sede, vou beber o meu Guará – que melhor refrescante não há. Ou havia. Era doce e acabou-se.

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