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Atualizado às: 30 de janeiro, 2006 - 11h14 GMT (09h14 Brasília)
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Nosso fumo, nossa alma
Ivan Lessa
Sou do tempo em que a Força Expedicionária Brasileira avisou que a cobra iria fumar na Itália. E fumou mesmo, conforme reza nosso lendário popular. Logo depois, os pracinhas voltaram e foram direto pedir auxílio, ou “qualquer coisinha”, na porta de serviço dos apartamentos da Zona Sul, tossindo muito e munidos dos documentos que comprovavam sua participação no combate às Forças do Eixo, em terras de Sílvio Berlusconi.

Por volta dessa mesma época, Nelson Gonçalves cantava que “fumar é um prazer, suave e embriagador”. Não sei que marca de cigarros o bom Nelson fumava, mas acho que exagerava na suavidade e embriaguez do roliço companheiro. Seguramente, não se referia às marcas Yolanda ou Astória. Colúmbia, da Souza Cruz, o mais caro de então? Talvez.

Todos nós fumávamos e não tinha nada demais. Era chique, era gostoso. Os garotos viam os americanos na tela fumando adoidados e, céticos e sofisticados (alguns de filtrafumo, para quem se lembra), ouviam a admoestação invariável dos mais velhos: “Olha, menino, que assim você não vai crescer.”

Crescemos. Fumando. Muito. Alguns ainda estão vivos. Chegaram estes até nossos dias, quando fumar passou a ser uma espécie de Osama bin Laden de nossa humana, por demais humana, saúde. Ninguém pode sequer passar perto da fumaça (suave e embriagadora ou não) emitida pelo companheiro ou companheira que ainda não deixaram o, conforme dizem, vício “imundo”, que há o perigo de imediatamente contraírem câncer de todos os órgãos que comecem com consoante ou vogal.

O “National Health Service” (NHS) britânico, o serviço de saúde pública, trava uma luta titânica contra o tabagismo, desenfreado ou contido. Auxiliam com tudo e por todos os meios, sempre de graça: daqueles esparadrapos com nicotina à goma de mascar idem, passando por folhetos, cursos, tapes e sítios na Net dando dicas e conselhos. Com eles, dá para a danada da cobra parar de fumar.

No Brasil, descobri haver um novo e original método de se combater o vício que só mesmo nós, que demos ao mundo Pelé e o desfile da escola de samba, conseguiríamos bolar. Lá estava na coluna do Ancelmo Góis, no “Globo” de 25 de janeiro:

“Nossa Danuza Leão (…) completa hoje quatro dias sem fumar. Desde que apagou a última guimba, faz caminhadas na Lagoa com uma treinadora contratada para ajudá-la não a perder peso, mas a ansiedade.”

Isso é espetacular! Um luxo! A bela beletrista, que divide com JK as honras de musa e muso do atual verão carioca, tem uma “personal mucama trainer” que caminha a seu lado soprando palavras de incentivo, “koans” zen e axiomas construtivos que, por certo, matarão no berço, tal como Hércules quando criança, as tais das cobras que querem, que insistem em fumar.

“Personal trainers” para todo mundo que quiser parar de fumar. Uau! Não entendo como esse ovo colombiano não ocorreu aos pouco imaginativos médicos britânicos. Talvez no próximo governo.

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