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Tristezas hibernais | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Conheço e gosto de blues. Tem sempre alguém repetindo que o seu amor foi embora, que agora vai se jogar no rio e, principalmente, como naquele pai de todos os blues, o “Saint Louis Blues” (1914), de W.C. Handy, tido como o seu inventor, onde ocorre a linha que mais de um poeta de primeiríssimo time, inclusive W.H. Auden, considerava o maior, o mais perfeito verso da língua inglesa: “I hate to see that evenin´ sun go down”, ou seja, eu detesto ver pôr do sol, mal traduzindo e simplificando. O verso está para os americanos assim como “Tu pisavas os astros distraída” (1937), de Orestes Barbosa, este tido por Manoel Bandeira como o mais belo da língua portuguesa. Nunca tive namorada, ou mesmo conhecida, que pisasse nos astros distraída. Que me deixasse esperando na porta do cinema ou me passasse para trás com um amigo, sim. Distraída pisando astros, não. Em compensação, mesmo na Copacabana entre os anos 40 a 70, me dei com muita gente que sofria dos males ao que parece compostos por W.C. Handy. Tristezas de São Luís Umas pessoas que podiam não saber cantarolar dois compassos das “Tristezas de São Luís (que não do Maranhão)”, a obra-prima de Handy, mas que, algo pedantemente, apoiadas por certo em livros comprados ou na Freitas Bastos ou na Civilização Brasileira, se diziam sofredoras da “melancolia do entardecer”. Devia ser chato. Com aqueles poentes de cair o queixo, quase todo dia, lá para as bandas dos Dois Irmãos. Aqui em Londres não tem poente, não tem irmãos, não tem astros, (Mick Jagger não conta), nada disso. Tem Turner e olha lá. Resultado: no inverno, agorinha mesmo entre dezembro e fevereiro, perto de 5 milhões de britânicos sofrem daquilo que aqui chamam de “Seasonal Affective Disorder” (SAD), que eu traduzo, tristemente, para “Distúrbio Afetivo Sazonal (DAS)”. Então eles tomam bolinha antidepressiva no finzinho do dia. Burrice. O que falta mesmo – vide a seresta de Orestes – é a cabrocha, o luar e o violão. |
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