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Em busca do tempo parado | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
São 3 horas e 26 minutos no relógio da igreja de Saint Giles, na aldeia de Chideock, 597 habitantes, condado de Dorset, Inglaterra. 3 horas e 26 minutos. 3 horas e 26 minutos. 3 horas e 26 minutos. Continuam a ser 3 horas e 26 minutos. Da madrugada ou da tarde? Isso não se sabe. Sabe-se que, em Chideock, o relógio da igrejinha diz que são 3 horas e 26 minutos há duas semanas e assim, até onde se prevê, continuará a ser. Espera-se para qualquer momento o primeiro caso de desequilíbrio nervoso que, tudo indica, deverá ocorrer às 3 horas e 26 minutos. São 3 horas e 26 minutos em Chideock porque há uma séria disputa a respeito de quem deve ou pode dar a corda no relógio da igrejinha de Saint Giles. O desentendimento ocorreu há mais de duas semanas, mas antes porém das 3 horas e 26 minutos, da tarde ou da madrugada. O conselho da aldeia entrou em desacordo com o cidadão Robert Murray, de passado e presente ilibados, que acumula duas tarefas: é conselheiro de Chideock e há 7 anos, todas as semanas, sem qualquer remuneração, sobe a escadaria da igrejinha de Saint Giles e dá a corda no relógio. Nunca recebeu nada, nunca pediu nada pelo trabalho. Robert Murray gosta de dar corda em relógio de igreja, como qualquer ser humano normal. Os conselheiros da aldeia, no entanto, decidiram que a tarefa de dar corda no relógio da igreja deve caber a pessoa que não pertença ao conselho de Chideock. Em sua sabedoria, os conselheiros optaram por expulsar do conselho Robert Murray, que, embirrado, parou de dar corda no relógio da igrejinha de Saint Giles. Descobriu-se então que não havia mais ninguém na aldeia que soubesse ou quisesse dar corda no relógio. Isso tudo, claro, deu-se bem antes das 3 horas e 26 minutos. Da tarde ou da madrugada. Robert Murray, entrevistado pela imprensa local, se afirmou injustiçado e declarou que tudo não passava de uma farsa. A sra. Jan Jacques, líder do conselho de Chideock, considera o caso todo “extremamente desagradável”. O conselho foi avisado por autoridades superiores que, uma vez que o posto anterior de dar corda no relógio da igreja costumava, até há sete anos, ser pago, o governo municipal não pode contratar para o serviço, a soldo ou não, alguém que já seja empregado pelo conselho. Daí o impasse. Como tanta coisa nestas ilhas, a impenetrabilidade da questão constitui sua graça e encanto. De tudo que foi dito e verificado, um único dado concreto pode ser extraído: na aldeia de Chideock, em Dorset, na Inglaterra, segundo o relógio da igrejinha de Saint Giles, são 3 horas e 26 minutos. Não se sabe se da tarde ou da madrugada. |
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