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Atualizado às: 06 de fevereiro, 2006 - 11h28 GMT (09h28 Brasília)
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Tato
Ivan Lessa
Coitados desses meninos ingleses que ficam saudosos quando se lembram de quando brincavam com soldadinho de chumbo. Não sabem o que era entrar de tato.

A molecada da rua tinha essa brincadeira lá pelos anos 40.

A gente entrava de tato um com o outro.

Entrar de tato era assim: dois moleques combinavam entrar de tato, que tinha suas variações, mas normalmente se limitava ou ao tato no bolso esquerdo ou tato no bolso direito das calças curtas.

O tato, com firma reconhecida no tabelião, era uma troca de tapinha à altura da cintura. Estava então oficializado o trato.

Trato. Seria daí a origem da palavra? Houaiss, Aurélio, ninguém dessa turma registra. Google também não se pronuncia a respeito. Havia, então, dois, ou mais, de tato.

Primeira vez que se vissem, de manhã, antes da praia – se fosse sábado ou férias --, ou de tarde, depois do colégio, o mais rápido no gatilho, ao dar com o outro, gritava assim:

-- Tato aí no bolso direito!

O outro tinha então que entregar tudo que levava no bolso direito.

Não era muita coisa, mas tudo vital: uma ou duas bolinhas de gude, um rolo de figurinhas preso por plástico, cigarrinho, com sorte 500 réis.

O tato durava até que se chegasse a uma resolução: choradeira com imploração ou porrada. As variações, como disse, eram mínimas.

Que moleque andava de camisa com bolso, esquerdo ou direito?

Mas havia uma modalidade interessante sem nenhuma finalidade de lucro a não ser a humilhação do companheiro: era o tato “marabandês”.

Tenho de tacar entre aspas porque nunca mais ouvi a palavra, nunca a li, nem posso jurar que seja mesmo “marabandês”, talvez fosse apenas um som parecido.

O tato “marabandês” era um perigo: o meio-dia na rua enlameada da cidadezinha do oeste, antes dos caubóis pegarem essa mania de tirar a roupa e ficar rolando no chão e enfiando a língua na boca um do outro.

Entrou de tato “marabandês”, deu o primeiro grito e tinha o direito de passar, bem devagarzinho, a mão na bunda do outro, pelo rego, desde lá embaixo, diante de todo mundo, antes da pelada começar.

Tinha que ser muito macho para entrar de tato “marabandês”. Ou meio fresco.

Depois das emoções do tato, da pelada, da porrada, sentávamos no meio-fio e ficávamos, empombados, vendo correr e cuspindo em cima dos pedaços de papel deslizando no fiapo de água que levava ao ralo do esgoto, bem no meio do quarteirão.

Sol na cabeça, joelhos escalavrados, esperando o pinto crescer.

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