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Livro de McCain sobre coragem pode servir de lição a partido de Bush | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O desgaste do presidente republicano George W. Bush serve para reforçar a imagem icônica do seu companheiro de partido John McCain. Senador de voz própria e fulminante, herói da Guerra do Vietnã submetido a atrozes torturas físicas e psicológicas nos seus cinco anos como prisioneiro em Hanói, McCain é uma jóia politica e pessoal tão valiosa que muitos democratas fantasiam em seduzi-lo para ser o companheiro de chapa de John Kerry nas eleições presidenciais de novembro. Seria uma combinação devastadora contra os planos de Bush de ficar mais quatro anos na Casa Branca. É bom esclarecer que McCain é um falcão em política externa, mas é uma ave rara no ninho republicano povoado de gente belicosa mais acostumada a atirar, por esporte, em patos do que a enfrentar genuínos perigos na zona de guerra. O melhor exemplo é o vice-presidente Richard Cheney. Dias atrás aconteceu uma cena bizarra no Congresso. O presidente da Câmara, o republicano Dennis Hastert, passou um sermão em McCain sobre o significado de sacrifício. Outro esclarecimento: técnico de luta livre em escola antes de entrar na política, Hastert se safou do alistamento militar no Vietnã. Não é à toa que o New York Times tenha lamentado em editorial, pródigo em elogios a McCain, que não se fazem mais republicanos como antigamente. Em meio aos tiros covardes disparados por seus próprios companheiros de partido, McCain costuma acertar no alvo com livros pertinentes. Com seu habitual colaborador Mark Salter, ele acaba de lançar um sobre coragem. Não estamos diante de uma obra-prima de tonalidades churchillianas, mas as reflexões são decentes. Estóico e avesso à autoglorificação, McCain conta histórias de heróis. Algumas são previsíveis se levarmos em conta o passado militar do senador. Mitchell Red Cloud pediu a outros soldados na Guerra da Coréia que amarrassem seu corpo, fatalmente ferido, a uma árvore, para que ele pudesse ficar de pé e continuar atirando no inimigo. Mas temos também as sagas como a de John Lewis, que se ajoelhou para rezar durante uma marcha pelos direitos civis no sul dos Estados Unidos enquanto levava uma surra da polícia. Há a história mais contemporânea de Angela Dawson, que se insurgiu contra os traficantes de crack em sua vizinhança em Baltimore e morreu quando eles tocaram fogo em sua casa. McCain tem muitos modelos de inspiração, mas diz que sua grande heroína é Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz, que passou muitos anos em prisão domiciliar por sua luta pela convocação de eleições livres em Mianmar (a antiga Birmânia). E o que é coragem, segundo o Evangelho de McCain? Para a incredulidade de muitos e talvez por constrangimento, McCain não se define como corajoso. Afirma que no seu cativeiro no Vietnã ele estava na companhia de heróis, e esta fraternidade encorajou a capacidade para resistir. O resistente McCain define coragem como um raro momento de unidade entre o medo consciente e a ação. Ele não acredita que seja possível ter coragem de verdade sem medo porque parte da coragem é superar o medo. Está aí uma boa lição de vida para atiradores de pato. Why Courage Matters, John McCain com Mark Salter, Random House, 224 páginas, US$ 16,95 |
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