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Justiceiros ideológicos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
No departamento da retórica, o presidente George W. Bush pôde apregoar no discurso sobre o Estado da União que os EUA não precisam de permissão de ninguém para ir à guerra ou zelar por seus interesses de segurança. No departamento da realidade, a Casa Branca hoje finalmente recorre aos préstimos da ONU no atoleiro iraquiano. Os trombeteiros neoconservadores Richard Perle e David Frum pertencem ao departamento de delírios ideológicos que deixam uma marca profunda na prática geopolítica. O livro da dupla, definido como um "manual de vitória", é basicamente uma advertência para o governo Bush não baixar a guarda. Saddam Hussein foi apenas o começo. Se depender de Perle e de Frum, o presidente deveria basear sua politica externa em ultimatos e nunca em negociações ou acomodações. 'Suspeitos habituais' Claro que Perle e Frum são os suspeitos habituais. Perle circula nos corredores do poder há 30 anos. Hoje é definido como um guru intelectual dos neoconservadores ou eminência parda da linha dura. Ele ficou conhecido nos anos 80 como o "Príncipe das Trevas", por sua oposição a acordos de armas nucleares com os soviéticos. É contra acordos, por convicção. David Frum não é um peso-pesado intelectual como Perle. Foi redator de discursos de Bush e ganhou seus 15 minutos de fama ao bolar a expressão "eixo do mal", a marca registrada da retórica presidencial. Hoje ambos integram o American Enterprise Institute (AEI), um dos mais influentes think-tanks conservadores dos EUA. Pouca diplomacia Bem, se Saddam foi apenas o começo, o que vem pela frente, conforme Perle e Frum? Essencialmente uma guerra permanente e em todos os rincões. Eles chegam a propor a secessão das províncias orientais da Arábia Saudita, riquíssimas em petróleo, se a monarquia Saud não cooperar para valer na chamada guerra contra o terror. No mundo real, os governos dos EUA e da Grã-Bretanha negociaram secretamente com a Líbia o desmantelamento do seu programa de armas de destruição em massa, mas Perle e Frum são infatigáveis para propagandear mudanças de regime, mesmo quando países se dobram à realidade do poder americano. No caso da Coréia do Norte, a recomendação é preparar um ataque preventivo se o regime de Pyonyang não abrir mão imediatamente do seu programa nuclear. Para Perle e Frum, o Irã "é o pior Estado terrorista do mundo"', representando uma "'ameaça intolerável" à segurança dos EUA. A saída é ajudar os dissidentes locais a derrubar o regime xiita. E vai assim por diante. Diplomacia não é exatamente o forte de Perle e Frum. Ele sugerem que a jurisdição da Carta das Nações Unidas deva ser explicitamente rejeitada caso não seja emendada para se ajustar à doutrina de ataque preventivo da administração. Para a França, apenas uma palavra: isolamento. Inimigos domésticos O mundo lá fora é um perigo aterrador, mas Perle e Frum também estão sobressaltados com os inimigos domésticos e aqui a lista dos frouxos ideológicos inclui os burocratas do Departamento de Estado e analistas da CIA. Nem é preciso mencionar o Partido Democrata e os moderados republicanos. O livro de Perle e Frum deve ser visto como um tônico para revitalizar as bases neoconservadores e reiterar sua influência nos corredores do poder em Washington. Essa influência evidentemente vai depender da evolução dos acontecimentos no Iraque e do resultado das eleições presidenciais em novembro. Por enquanto, Perle e Frum deixam claro que não estão para brincadeiras ou acomodações. An End to Evil: How to Win the War on Terror, David Frum e Richard Perle, Random House, 304 páginas, US$ 25,95 |
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