|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Palestino errante
O livro do casal Barry e Judith Rubin chega na hora certa. Isto não quer dizer que seja politicamente correto, no sentido mais puro, e não folclórico, da expressão. O tema é Yasser Arafat, e este palestino errante está mais em evidência do que nunca. Mais uma vez, ele renasce das cinzas e dos escombros, mostrando ser parte do problema e da solução da crise do Oriente Médio. O livro, é claro, não cobre os lances mais recentes da trajetória de Arafat, marcados pela disposição do governo Sharon para, de alguma forma ou outra, removê-lo de cena e pelo fracasso da administração Bush para descartá-lo do baralho político. Um governo palestino não subsiste se Arafat é colocado no ostracismo, como bem mostrou o melancólico fiasco de Mahmoud Abbas. Barry e Judith Rubin (ele é um acadêmico e ela, uma jornalista) são americanos que emigraram para Israel e não disfarçam sua exasperação com Arafat. O livro é definido como uma biografia política, mas na verdade é um indiciamento do veterano líder palestino de 74 anos. Arafat não é flor que se cheire, mas no seu legado teve (e tem) a cumplicidade de Israel. É difícil imaginá-lo em evidência hoje em dia sem o desempenho tão marcante de Ariel Sharon. Mas vamos ao que os autores israelenses do livro apresentam como sendo praticamente um prontuário de Arafat: - Ele está aí há mais de quatro décadas dando as cartas, enquanto gerações de generais e enviados diplomáticos vieram e se foram. - Arafat já passou por meia dúzia de presidentes americanos e sobreviveu a inúmeros atentados e a dirigentes históricos de Israel, como Menachem Begin e Yitzhak Rabin. - Odiado, tolerado e usado por líderes árabes, Arafat, na visão do livro, é um dos inventores do terrorismo moderno. Mas já foi diversas vezes hóspede de honra na Casa Branca e ganhou o Prêmio Nobel da Paz. - Segundo os autores, Arafat mente sobre sua história: alega que nasceu em Jerusalém, mas de fato teria nasido no Cairo. Conta histórias de heroísmo combatendo colunas de tanques israelenses na guerra de 1948, mas o livro diz que as evidências são de que estava no Egito naquela ocasião. - Em alguns momentos, Arafat expressa realismo político quando fala em inglês. Em árabe, com frequência recorre a um populismo incendiário. Consegue ser charmoso, mas nunca hesitou em determinar assassinatos de rivais ou encorajar a violência entre diferentes grupos palestinos. Os malabarismos políticos de Arafat são lendários. Soube se posicionar entre os diversos grupos islâmicos, marxistas e nacionalistas do mundo árabe. Já nos anos 50, ele teve contatos tanto com a CIA como a KGB. Era aliado de Saddam Hussein, mas não perdeu tempo para travar contato com o aiatolá Khomeini quando este tomou o poder no Irã, em 1979. Arafat é acusado de ser um incompetente administrador e de, em meio à miséria palestina, ter permitido que prosperasse a corrupção do alto escalão. Barry e Judith Rubin acusam Arafat de não ter feito a transição de terrorista a estadista. Eles indiciam e condenam: Arafat é um obstáculo supremo para a paz no Oriente Médio. Poucos atores políticos têm tanta legitimidade para reverter este veredicto como Shimon Peres, que, ao lado de Yitzhak Rabin e Arafat, ganhou o Nobel da Paz em 1994 em tributo aos acordos de Oslo. No mês passado, na celebração dos seus 80 anos, o ex-primeiro-ministro israelense disse que Arafat mereceu o Nobel, rompeu o tabu histórico por reconhecer o direito à existência do Estado de Israel e foi realista por aceitar um Estado palestino limitado aos territórios de Gaza e Cisjordânia. Peres, porém, lamentou a falta de inclinação de Arafat para conter o terror palestino. É um veredicto que torna mais equilibrada a biografia política de uma figura-chave do processo de guerra e paz no Oriente Médio YASIR ARAFAT: A POLITICAL BIOGRAPHY |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||