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Nova filosofice
O enfant terrible Bernard-Henri Lévy cresceu para se tornar uma cause célèbre. Os franceses já estão cansados de saber das idéias, do ex-marxismo, das missões diplomáticas, dos livros, do boa pinta nas capas de revistas, do penteado e da mulher maravilhosa (a atriz Arielle Dombasle). A mistura de filosofice e frivolidade gerou um antológico título num artigo sobre Bernard-Henri Lévy: “Deus morreu, mas meu cabelo é perfeito”. Com a fama, nem sempre ilustre, o “novo filósofo” hoje com 55 anos é a grife conhecida como BHL. Em geral, os americanos não sabem das aventuras intelectuais e narcisistas de BHL, que hoje é um militante do "anti-anti-americanismo". Mas agora eles têm uma oportunidade dourada com o lançamento da versão em inglês do seu mais recente bestseller. No que BHL definiu como um “romance investigativo”, existe a revelação (ou alegação) de que o repórter Daniel Pearl, do Wall Street Journal, foi decapitado por radicais islâmicos em Karachi, em fevereiro do ano passado, não apenas por ser americano e judeu, mas porque estava na trilha para descobrir conexões espetaculares entre o serviço secreto paquistânes, cientistas nucleares daquele país e a rede Al-Qaeda. A morte de Daniel Pearl, portanto, teria sido mais do que uma barbárie praticada por fanáticos religiosos ensandecidos. Teria sido um frio e premeditado crime de Estado. Vale lembrar que o Paquistão é aliado-chave dos EUA na chamada guerra contra o terror. Com uma tese tão polêmica era previsível que o 29º livro de BHL fosse a sensação parisiense no lançamento em abril passado. Agora já existe o esboço de um “frisson” nova-iorquino. Intelectuais e filósofos com tanta visibilidade são um típico produto francês. Embora sem a mesma estatura, BHL segue as pegadas de Victor Hugo, Emile Zola, Jean-Paul Sartre (sobre quem ele escreveu uma biografia que acaba de ser publicada em inglês) e André Malraux. Mas BHL também pega a trilha de escritores americanos como Norman Mailer ou Truman Capote ao escrever um “romanquete”, parte romance, parte enquete (ou investigação). BHL fez suas investigações “in loco”, inclusive com cinco viagens ao Paquistão, e conversou com parentes e Mariane, a viúva de Daniel Pearl. Ele diz que usou “fatos conhecidos” para reconstruir o crime, mas admite que “quando as pistas não foram encontradas, as testemunhas fugiram ou não existem informações reais”, é preciso preencher a história com imaginação. E lá vai BHL para os pensamentos de Daniel Pearl momentos antes de seu assassinato atroz: “Ele pensa em Mariane naquela última noite, tão desejável, tão bonita”. BHL nem sempre é categórico. Ele escreve: “Eu aposto que Daniel Pearl estava ocupado em reunir provas do conluio do Paquistão com redes terroristas internacionais”. O Wall Street Journal não quis saber de cooperar com o “romanquete” de BHL e o editor Paul Steiger disse que o jornal não teve evidências de que Daniel Pearl estava investigando tal conspiração. Mas, na dúvida, Steiger acrescenta que as autoridades deveriam dar uma olhada no livro para ver se tem alguma informação útil para as investigações policiais. Bernard-Henri Lévy não tem dúvidas que Daniel Pearl morreu porque sabia demais. Talvez ela seja um filósofo que especula demais. São privilégios da grife BHL. WHO KILLED DANIEL PEARL? Bernard-Henri Lévy Melville House, 400 páginas, US$25.95 |
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