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Análise de dentro
Com a polêmica se os governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha exageraram a ameaça sobre as armas de destruição em massa do Iraque ou, pior, se maquiaram os dados dos serviços de inteligência, torna-se mais interessante do que nunca conhecer a vida e o modus operandi de Richard Helms. O lendário homem da CIA morreu em outubro passado, aos 89 anos, e ainda teve tempo de trabalhar, ao lado do amigo William Hood, na autobiografia que ele prometera que nunca iria escrever. Helms esteve lá, como observador ou participante, em grandes ações, sucessos e fiascos da CIA, desde a sua fundação, em 1947, até ser despachado do seu comando, em 1973, por Richard Nixon por ter se recusado a integrar tramóias do escândalo Watergate. Claro que Helms não era nenhum santo. Este não é um livro de moral, mas de espionagem. Helms, no entanto, oferece muitas lições. Ao longo de sua carreira em inteligência, que começou na Segunda Guerra Mundial, Helms enfrentou um problema persistente. Alguns líderes estavam tão empenhados em adotar uma política ou derrubar algum governo que nem mesmo a mais desencorajadora análise os persuadiam de abandonar este curso. A advertência valia na Guerra Fria e vale para os dias de hoje. Não é nenhum segredo que a CIA esteve implicada em bem-sucedidas operações de desestabilização de governos nacionalistas nos anos 50, em países como Irã e Guatemala. Helms insiste que estas operações encobertas são uma terceira via preferível à desgastante diplomacia ou ao uso aberto de força militar. Mas ele adverte que o êxito depende de apoio popular. A recomendação não foi ouvida no plano para derrubar Fidel Castro, em 1961, através do desembarque na Baía dos Porcos, em Cuba, de um pequeno grupo armado de exilados que iria inflamar uma insurreição popular. Foi o maior fiasco da história da CIA e aconteceu porque o departamento de operações encobertas ignorou as análises do pessoal de coleta de inteligência. Um dos resultados foi a obsessão do presidente John Kennedy e do seu irmão Bob para derrubar Castro. Já para os obcecados em teorias conspiratórias, Helms é uma decepção. Ele reitera que Lee Harvey Oswald foi o único envolvido no assassinato de Kennedy em novembro de 1963. Helms tornou-se diretor da CIA no governo Johnson e diz que o Vietnã foi o seu "pesadelo por dez anos" pela incapacidade de penetrar no governo comunista de Hanói e conseguir sólidas informações sobre a capacidade militar do inimigo. Com a forçada aposentadoria, Helms não teve uma vida tranqüila. Serviu como embaixador no Irã (aquele da campanha de desestabilização em 1953), mas os anos 70 foram marcados pelas CPIs do Congresso sobre os excessos da CIA. O veterano homem de inteligência foi uma das vítimas. Helms foi condenado pela Justiça federal por falso testemunho quando se recusou a responder se a CIA estivera engajada nos esforços para impedir que Salvador Allende assumisse o poder no Chile. Foi sentenciado a uma multa de US$ 2 mil e pena (suspensa) de dois anos de prisão. Helms deixou a CIA sete meses antes do golpe de Augusto Pinochet, em 1973, e, no livro, ele diz acreditar que a queda em si de Allende não exigiu assistência da inteligência americana. Os eventos chilenos mostram que Helms fez justiça à fama de "o homem que guardava segredos", o título da biografia escrita por Thomas Powers. Mas esta autobiografia recém-lançada prova como ele tinha boas histórias para contar. A LOOK OVER MY SHOULDER Richard Helms com William Hood Random House, US$ 35, 478 páginas |
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