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A megera domada
A superpotência americana é um monstro perigoso, generoso, arrogante e ingênuo. O monstro precisa ser domado. Definições tão cruas não eram manifestadas pelo veterano diplomata brasileiro Gelson Fonseca (hoje embaixador no Chile) nos tempos em que ele chefiava a missão do Brasil na ONU, mas ele conhecia os dilemas de uma instituição multilateral por excelência no mundo do poder unipolar. Em uma conversa com este colunista em Nova York, o embaixador Gelson Fonseca disse que ficou surpreso com o deslumbramento de um repórter do The New York Times quando, ainda antes da guerra no Iraque, ele observou o óbvio: era uma situação de "dupla contenção". Era preciso conter tanto Saddam Hussein quanto George W. Bush. Para o Conselho de Segurança da ONU, o desafio era encontrar o meio-termo entre ratificar os ímpetos americanos (e assim tornar supérflua uma entidade multilateral) ou simplesmente bloquear os planos de Bush (e assim provocar a sua ação unilateral, tornando irrelevante a entidade multilateral). Teste-chave Como se vê, nada é simples para a ONU. Buscar o meio-termo é levar chumbo no fogo cruzado. À esquerda, aqueles que vêem a entidade como um instrumento dos interesses americanos. À direita, a paranóia de alguns que enxergam a ONU como um esboço de um governo mundial destinado a minar o poder da superpotência. E com a novela de resoluções e o papel da ONU no pós-guerra, o Iraque é o teste-chave em andamento para avaliar o desempenho da entidade no mundo da supremacia dos EUA. Tudo é complicado na ONU, porque a instituição é basicamente uma criação americana. É complicado, antes de tudo, porque ela não foi criada para o exercício cru da hegemonia dos EUA. Em um livro publicado quando a ONU está iniciando sua 58ª Assembléia Geral, Stephen Schlesinger, mostra como o nascimento da instituição foi um sofisticado triunfo da diplomacia americana, uma obra genial de Franklin Roosevelt. Em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial e após o fiasco da Liga das Nações, havia pouco entusiasmo por uma nova tentativa de criar uma entidade diplomática mundial. Ceticismo Winston Churchill e Josef Stalin estavam céticos. Para que projetos utópicos? Melhor firmar novos tratados de Tordesilhas e tocar a geopolítica. Mas criar a ONU era prioridade para Roosevelt, e o projeto não tinha nada de utópico. O presidente americano finalmente persuadiu os comparsas da guerra contra o Eixo sobre a validade de uma nova entidade mundial. Roosevelt não queria repetir os erros e o idealismo de Woodrow Wilson com a Liga das Nações, após a Primeira Guerra Mundial. Desta vez, era necessária uma entidade com músculo, com poder. A idéia não era erguer os pilares de um governo mundial. O objetivo era um pacto de segurança para evitar uma outra guerra mundial. O clube da ONU seria aberto a todos (grandes e pequenos, ricos e pobres), mas a ordem seria mantida pelos "quatro policiais" EUA, Rússia, China e Grã-Bretanha. Logo depois, a França ganhou seu uniforme e privilégios. Tudo isto foi visualizado por Roosevelt num momento de descomunal dominação global americana, maior do que nos dias de hoje. Roosevelt sabia que a pax americana deveria ser multilateral, embora descartando uma utopia democrática. Alguns ocupantes da Casa Branca são estadistas. Outros, apenas presidentes. Act of Creation, The Founding of the United Nations Stephen Schlesinger Westview Press, 392 páginas, US$ 27,50 |
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