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A Largura de Magalhães
Para nos distrairmos um pouco das ufanistas celebrações que os americanos estão fazendo no centenário do vôo dos irmãos Wright (17 de dezembro), a biografia de Laurence Bergreen é um maná dos céus. O objeto é Fernão de Magalhães, um grande desbravador, só que dos mares e não dos ares. Bergreen dá o compreensível valor à sua especiaria, com sentimentos que misturam fascinação e repugnância. O português Magalhães, na verdade, era um homem sem pátria. Traíra Portugal pela Espanha. Era desprezado no país de origem, motivo de desconfiança na corte do Rei Carlos e alvo de motins por sua tripulação multinacional. Ousado, arrogante, destemido e cruel, Magalhães era também megalomaníaco. Somente alguém com este perfil para empreender a viagem épica, que incluiu a descoberta do estreito que leva o seu nome, perto do Círculo Antártico. Sua viagem foi 14 vezes mais longa do que a de Cristóvão Colombo, mas ao contrário do genovês, também a serviço dos espanhóis, Magalhães não descobriu nenhum continente para os europeus. Bergreen, no entanto, descreve a primeira viagem de circunavegação do globo como a mais importante da era das descobertas nos séculos 15 e 16. Como diz Bergreen, a competição entre os impérios da Espanha e Portugal pelo controle da rota das especiarias “era o equivalente na Renascença a vencer a corrida espacial”. Magalhães, é claro, não completou a viagem épica. Isto ajuda a explicar que ele nunca tenha tido a fama de Colombo, Vasco da Gama, Américo Vespúcio ou mesmo Pedro Álvares Cabral, que por um tempo pelo menos puderam apregoar seus feitos e alimentar suas reputações. Magalhães foi morto por nativos na ilha de Mactan, nas Filipinas, em abril de 1521. Em setembro de 1522, três anos após a partida, o que restara da expedição retornou ao porto de Sanlucar de Barrameda, em Sevilha. Da frota de cinco navios, sobrara o Victória, com apenas 18 dos 260 tripulantes originais. A volta da nau danificada provou que o Extremo Oriente poderia ser alcançado navegando para o Oeste e que o oceano Pacifico era muito maior do que os europeus imaginavam. Provavelmente, o primeiro homem que empreendeu uma viagem de circunavegação do globo foi Enrique, o escravo de Fernão de Magalhães, que acompanhara o seu senhor por dez anos através de terras e mares. Enrique supostamente ficou nas Filipinas (sua terra nativa) e desapareceu dos registros históricos. O capitão basco Juan Sebastian Elcano trouxe a nau Victória de volta. Trouxe também 381 sacos de cravos. A venda da especiaria cobriu os custos da expedição, inclusive a perda de quatro navios. Mais do que isto, os financiadores da viagem tiveram lucros. Por mais penosa que fosse, a viagem maritima para o Oriente compensava mais do que as rotas terrestres tradicionais. O biógrafo Laurence Bergreen não é historiador e muito menos especialista no período que pesquisou. Quem é do ramo diz que ele não acrescenta nada ao conhecido, mas narra a saga de Fernão de Magalhães com a verve apropriada e soube recorrer muito bem ao diário do veneziano Antonio Pigafetta. A bagagem de Bergreen também facilitou sua expedição. Ele já escreveu biografias de Louis Armstrong, Al Capone e cientistas da Nasa, gente que rompeu os limites e esteve em mares nunca dantes navegados. Over the Edge of the World, Laurence Bergreen, Editora Morrow, 480 páginas, US$27.95 |
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