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Contra todos os inimigos e na contramão | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O ex-assessor de contraterrorismo da Casa Branca, Richard Clarke, agora está na contramão. É um circuito normal. O insider resolve cair fora e contar ao mundo a sua estória e a sua versão da história. Clarke não precisa fazer marketing do seu livro Against All Enemies, uma crônica fascinante, intrigante, intrigueira, egocêntrica e ressentida das falhas do governo Bush (Clinton também falhou, mas isto não vem muito ao caso em 2004) para combater Osama bin Laden, o inimigo público número um. A melhor propaganda para o livro é a contrapropaganda implacável da Casa Branca. John Kerry ainda não viu nada. Por estes dias parece que Clarke e não Osama é o inimigo público número um de George W. Bush. As constantes aparições de Clarke na televisão, assim como o seu dramático depoimento na comissão bipartidária que investiga os atentados de 11 de setembro de 2001, também deram uma força para a vendagem do livro. Portanto, nenhuma surpresa. O inimigo público número um de Bush neste momento é também o número um na lista de best-sellers da Amazon.com. Mundo novo O livro já vale pelo primeiro capítulo, que focaliza a manhã de 11 de setembro de 2001, o primeiro dia de um nada admirável mundo novo para os americanos. O presidente Bush está na Flórida, e o veterano burocrata Clarke administra a crise na Casa Branca. Sem ninguém saber exatamente o que mais poderia acontecer além dos estragos provocados pelos quatro aviões pilotados pelos terroristas-suicidas da Al-Qaeda, Clarke inclusive aconselha Bush a não retornar imediatamente a Washington. É um cenário hollywoodiano, e quando o filme for produzido não pode faltar a cena do depoimento de Clarke à comissão bipartidária do Congresso que investiga os atentados em que ele pede desculpas às familias das vítimas. Clarke falhou, e o governo também. O caso Clarke ganhou asas e voou. Era de se esperar. Afinal, segurança nacional é a razão de ser do presidente Bush e peça-chave de sua campanha de reeleição. Diluição Mas vamos voltar ao livro, perdão, ao best-seller. Qual é o seu impacto político em si? Sim, o livro é uma bomba, mas o depoimento de Clarke à comissão do 11 de setembro foi explosivo e tem mais implicações políticas. E em sucessivas entrevistas à televisão, ele foi mais picante. Disse que foi "intimidado" por Bush a estabelecer a conexão entre a Al-Qaeda de Osama bin Laden e o Iraque de Saddam Hussein. Esta conexão inexiste, mas a Amazon.com estabelece uma que dilui o peso do livro de Richard Clarke. O entreposto livresco online mostra que o produto do ex-assessor da Casa Branca está sendo comprado pelos mesmos consumidores que adquiriram títulos muito mais bombásticos, destinados a alvejar Bush com força total. São livros de jornalistas como Joe Conason (Big Lies) e David Corn (The Lies of George W. Bush) ou de humoristas como Michael Moore e Al Franken. São leitores-eleitores que já consideram que o presidente seja o mentiroso-em-chefe. Do outro lado da livraria estão sendo vendidos os livros dos apresentadores conservadores de talk-show Sean Hannity e Michael Savage, denunciando os inimigos e mentirosos liberais. Os eleitores estão polarizados, assim como os hábitos de leitura dos americanos. No seu livro, Richard Clarke fala da luta contra todos os inimigos. Hoje em dia, o todo é apenas a metade. Against All Enemies, Richard Clarke, Free Press, 304 páginas, US$ 27. |
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