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Atualizado às: 05 de março, 2004 - 16h39 GMT (13h39 Brasília)
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Limpeza no quintal

Caio Blinder
Desta vez, Donald Rumsfeld não pode se queixar. O Iraque não tem o direito de provocar uma discórdia perpétua entre os pilares da civilização ocidental.

A França, representante exemplar da "velha Europa", seguiu os passos americanos e está colaborando com afinco na limpeza da bagunça do Haiti, mais um Estado falido que precisa de uma dose de imperialismo benigno.

É assim que Robert Cooper gosta. Ele é um dos cérebros da política externa da União Européia. Antes foi íntimo assessor de Tony Blair.

Logo, Cooper tem uma tendência para buscar uma terceira via. Nesta coleção de concisos ensaios (que obviamente são muito esquemáticos), Cooper argumenta que o mundo está dividido entre Estados pré-modernos, modernos e pós-modernos.

Na primeira esfera está a zona de caos, localizada basicamente na África e Ásia (Libéria e Afeganistão, por exemplo).

Bandidagem

Podemos atualizar e inserir o Haiti. O Estado falido é basicamente incapaz de ter o monopólio da violência e impor a lei. Bandos fazem o que bem entendem, recorrendo ao terror ideológico ou à pura bandidagem.

Muitas vezes se apropriam do Estado, reforçando o perigo do uso de armas de destruição em massa. O pobre Haiti, até como perigo à estabilidade mundial ou regional, é subdesenvolvido. Sua única arma de destruição em massa é o êxodo de refugiados.

Na segunda esfera está o Estado moderno com seu foco tradicional nos interesses nacionais e que recorre à força para protegê-los. É uma esfera criada ou manipulada pelas potências européias nos dois últimos séculos Hoje é habitada pela China, Índia e o exemplo supremo, os EUA.

E o privilegiado mundo pós-moderno é aquela "velha Europa" desdenhada pelo "moderno"' Rumsfeld, que pode se dar ao luxo de descartar o uso da força como instrumento primário de política.

Como se vê, estamos no território desbravado anteriormente por Robert Kagan, autor do best-seller semiacadêmico "Paraíso e Poder" e que popularizou a expressão "os americanos são de Marte e os europeus, de Vênus".

Cooper adverte que no paraíso europeu é fácil esquecer que o uso da força é importante e, embora não poupe os americanos por seus pecados hegemônicos, ele conclama os europeus a participarem das tarefas de limpeza no mundo pré-moderno.

Ataque preventivo

Mais do que isto, Cooper é defensor da doutrina do ataque preventivo, ou doutrina Bush, que hoje está sob ataque sistemático diante da inexistência (até agora) das armas de destruição em massa que justificaram a invasão do Iraque.

Para Cooper, os americanos sozinhos têm a capacidade material de recorrerem ao ataque preventivo quando e onde bem entenderem. É uma afirmação discutivel diante das dificuldades para colocar as máquinas preventivas do império em operação em vários lugares ao mesmo tempo.

De qualquer forma, Cooper espera mais cooperação do mundo pós-moderno na reconstrução da esfera pré-moderna.

Esta cooperação entre a velharia européia e a modernidade americana (a expressão crua e cruel obviamente não é dele) tem componentes idealistas e utilitários. É essencial para europeus e americanos confrontarem as ameaças comuns.

O chamado de Cooper por um novo imperialismo ocidental é uma jóia de muito valor intelectual para quem acredita ser compatível com direitos humanos e valores cosmopolistas.

Para os demais, não passa de bijuteria ideológica para justificar o envio de "marines" norte-americanos ou "gendarmes" franceses para qualquer buraco pré-moderno.

The Breaking Of Nations, Robert Cooper, Atlantic Monthly Press, 180 páginas, US$ 18.95

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