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Dia 10: A cachoeira que liga e desliga no interior da Bahia
O repórter Paulo Cabral percorre os Rios das Velhas e São Francisco seguindo os passos do explorador Richard Burton quase 150 anos depois. Ele conta diariamente o que encontra no mesmo caminho. Clique no dia para ler o relato.
____ ¨¨¨¨ Dia 10 - Paulo Afonso (BA) Na cidade de Paulo Afonso, não é só a energia fornecida pelas diversas usinas implantadas ao longo do Rio São Francisco que pode ser ligada e desligada. A própria cachoeira de Paulo Afonso – a “Niágara brasileira”, na descrição de Richard Burton – também é ligada e desligada ao simples toque de alguns botões. “A Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco) está avaliando a possibilidade de operações programadas da cachoeira" – diz uma frase, que não deixa de soar um tanto estranha, em um folheto distribuído pela companhia.
Outras quedas d'água brasileiras foram submersas por lagos de hidrelétricas. Sete Quedas é, sem dúvida, o caso mais famoso, mas o caso de Paulo Afonso é exatamente o oposto. Corações divididos A queda ainda está lá, e o que sumiu foi a água. A cachoeira “cheia com o que não parece água, mas espuma de leite batendo e se agitando, rodopiando em uma massa amorfa”, vista por Burton, é hoje um paredão de pedra quase totalmente seco, que só dá uma vaga idéia da grandiosidade do passado. Mas basta que as comportas certas sejam abertas para que a água escorra do lago de Paulo Afonso e a cachoeira volte à vida. A população local aprova a troca da queda pela usina, que abastece a região não só com energia mas também com empregos. “Meu pai trabalhou na construção e depois na operação da usina. Eu trabalho aqui hoje e espero que meus filhos, no futuro, também entrem na usina”, me disse um funcionário da Chesf. Conversando com moradores, percebi corações divididos entre a beleza natural do velho Chico e a grandiosidade da obra de engenharia que é a usina de Paulo Afonso. Prova disso é o CD gravado por funcionários da Chesf louvando uma coisa e outra.
Eu não tive a oportunidade de visitar o nicho das turbinas na usina de Sobradinho – como sugeriu, em um e-mail, o internauta José Carlos Andrade, que lembra da “experiência curiosa” de estar a quinze metros de profundidade, separado do lago por apenas uma placa de aço. Mas andei pelos túneis de Paulo Afonso, 82 metros debaixo de terra e água, e a experiência também é das mais impressionantes. Em Paulo Afonso, é grande a esperança de que, com o projeto de revitalização do Rio São Francisco, o aumento do fluxo de suas águas deslanche e, assim, a força natural da cachoeira possa conviver permanentemente, lado a lado, com a energia produzida pelo homem pela usina hidrelétrica. A cachoeira poderia então, voltar a ser, como escreveu Richard Burton, “a concretização da idéia de energia, de uma energia tremenda, inexorável, irresistível. Um encantador contraste entre a água na sua ânsia louca de fugir e o frágil arco-íris que se forma sobre ela”. |
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