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Dia 6: Quilombolas do século 21 tentam preservar a sua cultura própria
O repórter Paulo Cabral percorre os Rios das Velhas e São Francisco seguindo os passos do explorador Richard Burton quase 150 anos depois. Ele conta diariamente o que encontra no mesmo caminho. Clique no dia para ler o relato
____ ¨¨¨¨ Dia 6 - Bom Jesus da Lapa (BA) ao Quilombo do Rio das Ras (BA) "Se uma escrava tivesse relações sexuais com um escravo e o dono deles, descobrisse, a mulher era pregada pelo lábio na porta da senzala por vários dias para servir de exemplo para os outros", me contou Moisés Cândido da Silva, o professor Zezinho, o lider informal do Quilombo do Rio das Ras, perto de Bom Jesus da Lapa, no sertão baiano. Histórias como essa, passadas de geração em geração só deixam mais claros – coisa no fundo desnecessária – os motivos que levavam os negros presos e humilhados nas fazendas a fugirem sertão adentro e a procurarem os recantos mais isolados e de difícil acesso para formarem seus quilombos. Richard Burton se referiu aos quilombos como locais em que se escondiam bandidos negros, numa das maiores incompreensões do explorador inglês – que, em geral, fez observações interessantes e pertinentes - do que se passava no Brasil durante as viagens dele.
Os quilombos eram, na verdade, fortalezas para proteger a liberdade do negros e permitir que em meio a hostilidade da sociedade escravista, uma vida digna e mais próxima de sua cultura – primeiro, africana, e, depois, afro-brasileira – fosse vivida. Luta quilombola Ainda há espalhadas pelo país dezenas de comunidades quilombolas remanescentes, que da luta contra a escravidão passaram agora à luta contra o preconceito racial. Elas tiveram uma grande vitória quando a Constituição de 1988 lhes garantiu o direito a posse das terras que ocupam. Mas isto é só começo. Continua em muitas destas comunidades a luta com os fazendeiros que se recusam a deixar as terras. Em Rio das Ras, felizmente, o assunto já está resolvido e os projetos agrícolas da comunidade sendo desenvolvidos. E a original cultura quilombola tem de competir – dificilmente em condições de igualdade – com a informação que chega de fora através de antenas parabólicas.
Os quilombolas do século 21 se esforçam para preservar – ou mesmo recriar – a cultura de seus antepassados e desenvolver a economia de suas comunidades, em especial a agricultura, para ganharem a dignidade de uma vida acima da pura subsistência. Para minha visita ao Rio das Ras, a comunidade se reuniu para mostrar as músicas que está produzindo e seus treinos de capoeira – a arte marcial que antes e hoje prepara mente e corpo para a luta pela liberdade. Tive até a oportunidade de jogar com eles, os descedentes diretos dos mestres desta arte, a minha fraca e iniciante capoeira. Saí de lá com um pouco de dor nas costas, mas com um gosto da liberdade no peito. |
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