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Dia 1: Peixe do rio das Velhas só se come 'com muito limão'
O repórter Paulo Cabral percorre os rios das Velhas e São Francisco seguindo os passos do explorador Richard Burton quase 150 anos depois. Ele conta diariamente o que encontra no mesmo caminho. Clique no dia para ler o relato
____ ¨¨¨¨ Dia 1 - Sabará (MG) a Santa Luzia (MG) Em 1867, o capitão Richard Burton escreveu que bastaria encher um balde com água do rio das Velhas para pegar pelo menos meia dúzia de peixes. Mas, quando passei por lá neste domingo, quase 150 anos depois, tive uma impressão bastante diferente: um balde da hoje malcheirosa água do rio das Velhas talvez poderia até ter um ou dois pequenos peixes, mas eles viriam escondidos no meio das garrafas plásticas, sacolas e outros dejetos – além da poluição invisível – que estão nas águas do rio. Esse triste quadro é resultado da presença das indústrias que despejam dejetos químicos no rio, do esgoto doméstico sem tratamento de 4 milhões de pessoas e do lixo jogado na água pelos moradores da região. Toda a sujeira me impediu de dar um mergulho naquelas águas – o que seria ideal num domingo ensolarado e quente em Sabará. A sujeira, no entanto, não impede que pescadores continuem atrás dos poucos peixes que ainda há no rio. Previsão equivocada Só que a pesca está longe de ter se tornado a grande indústria que, na opinião de Burton, poderia ser criada na região. Os peixes capturados agora por aqui são usados apenas para alimentar a população local e ainda assim "temperados com muito limão para tirar o cheiro e desinfetar", como me explicou uma mulher que passeava com a neta pelas margens do rio.
Burton tambem contou que podia ouvir do seu barco peixes roncando. Com menos vida na água e muito barulho em volta, não consegui ouvi-los na natureza. Mas recorri a um professor de biologia da Universidade Federal de Minas Gerais para ouvir os sons que ele havia gravado com um hidrofone – um microfone especial para captar sons embaixo d'água. É um som grave, parecido com o motor de uma velha lambreta tentando dar a partida, mas que, segundo os especialistas, soa como um canto de amor para peixes-fêmea que estejam passando por ali.
A "frondosa vegetação" descrita por Burton na viagem entre Sabará e Santa Luzia também não está mais lá e foi substituida por quilometros de capim, mamona e alguns poucos ipês amarelos, dando uma idéia de como poderia estar o vale do Rio das Velhas se, nas últimas decadas, o desenvolvimento sustentado tivesse ocupado o lugar do "desenvolvimento a todo custo". A próxima parada de Paulo Cabral será na cachoeira de Pirapora, onde o Rio das Velhas encontra o São Francisco. |
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