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Dia 3: Pneu furado leva repórter a igreja abandonada
O repórter Paulo Cabral percorre os rios das Velhas e São Francisco seguindo os passos do explorador Richard Burton quase 150 anos depois. Ele conta diariamente o que encontra no mesmo caminho. Clique no dia para ler o relato
____ ¨¨¨¨ ¨ Dia 3 - Pirapora (MG) a Januária (MG) Richard Burton, Setembro de 1867 - "A hospitalidade é o que mais atrasa o viajante no Brasil. Você pode fazer o que quiser e ficar na casa de alguém por um mês, mas nunca por um só dia." Depois de ter conseguido passar intacto pela capenga ponte que liga as duas margens do São Francisco na altura de Pirapora, acreditei que o pior já tinha passado. Que nada. O problema veio depois que peguei a esburacada estrada para seguir viagem até a cidade de Januária. Por cerca de 50 km, consegui evitar todos os buracos – crateras talvez seja mais apropriado –até que um dos mais profundos, logo depois de uma curva, me pegou. Acidente Não teve jeito: roda amassada, pneu murcho e o medo de perder muito tempo e atrasar a etapa de 350 km que ainda tinha de vencer.
Mas a hospitalidade que Burton notou durante a sua viagem, e sobre a qual tinha até suas reclamacões, salvou o dia. Parei na borracharia do Maguila - Adílson é seu verdadeiro nome, e ao vê-lo pessoalmente vi que o apelido lhe cabia perfeitamente. Ele rapidamente consertou minha roda e, movido pela boa vontade e pelo orgulho de sua terra, me levou até uma velha igrejinha bem às margens do rio, na cidade de Barra do Guaicui. A visita fez valer a pena o pneu furado: a igrejinha de pedra está sem telhado, mas suas paredes e colunas ainda estão de pé. Onde ficava o altar nos tempos em que a velha igreja funcionava cresceu uma gigantesca gameleira. As raízes da árvore recobrem toda a parede e entram pelos vãos dos tijolos. O tronco se ergue por pelo menos 4 metros sobre os cerca de 10 metros da estrutura de pedra. São ruínas de uma grande beleza – "Já tem gente até do estrangeiro que veio visitar aqui", me contou Maguila –, mas lamentavelmente manchadas por centenas de pixações. Destino final Cheguei a Januária no início da tarde com um sol de 30 graus, perfeito para uma praia.
E, mesmo estando a cerca de 700 km do oceano, Januária tem praia. Nas margens do São Francisco, os moradores aproveitavam o feriado de São João decretado pelo prefeito para um futebol na areia ao som do forró modernizado e eletrônico que se ouve em todo lugar por aqui. A água limpa e a paisagem deslumbrante só são estragadas pelo lixo que muita gente deixa na praia. É verdade que não há latas de lixo na areia, mas o problema vai mais fundo. Trata-se de convencer quem ainda não percebeu que um lugar como esse é de todo mundo, e não de alguém em particular. |
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