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Economista francês defende controle da saída de capitais | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O economista Thomas Coutrot, do Ministério do Trabalho da França, diz que a política econômica não está voltada para a geração de emprego e renda no Brasil. Ele defende uma mudança radical de rumos, com a adoção do controle da saída de capitais e ênfase em um modelo para atender a demanda doméstica. Dessa forma, segundo ele, será possível promover o crescimento com as próprias empresas brasileiras investindo e produzindo para atender o consumo interno. A seguir, a entrevista de Coutrot à BBC Brasil: BBC Brasil - Qual a influência que os governos têm sobre a criação de empregos? Thomas Coutrot - Uma influência muito grande. Não a nível das empresas diretamente, mas a nível da política macroeconômica. Um governo que tem uma política macroeconômica ofensiva, voltada para o crescimento econômico, tem um papel muito importante para a geração de emprego, porque quando a demanda, o consumo e o investimento aumentam graças a uma política expansiva, isso permite geração de empregos. BBC Brasil - No caso específico do Brasil, que passou por um ajuste macroeconômico, tem juros altos e superávit primário elevado. Quais as dificuldades que essa combinação cria para geração de emprego? Coutrot - Claramente a política econômica que está sendo seguida no Brasil não é voltada para o crescimento econômico e nem geração de emprego. É voltada para a estabilidade financeira, para o pagamento de juros da dívida interna e externa. Como a experiência de muitos países mostra nos últimos anos, privilegiando a estabilidade financeira, você prejudica o crescimento a médio e longo prazo, na medida em que põe os parâmetros do crescimento econômico nas mãos dos mercados financeiros internacionais, que têm uma alta tendência à instabilidade e à imprevisibilidade. Não favorece a investimento e crescimento. BBC Brasil - Nessas condições, o governo brasileiro tem alternativas de políticas de criação de emprego? Coutrot – Na medida em que o governo brasileiro não está querendo mudar a política financeira, quer dizer, começar a instaurar controles sobre a movimentação de capital entre o Brasil e o resto do mundo, ele tem obrigação de continuar servindo esses juros elevados, que são determinados pela procura e oferta internacional de capital. Então restam poucas opções a nível interno para melhorar a situação de emprego. Pode se desenvolver políticas específicas de geração de empregos, mas que, como a experiência internacional mostra, vão produzir resultados frágeis. Por exemplo, políticas voltadas para os jovens ou para os desempregados de longa duração podem ter alguns resultados, principalmente redistribuindo o risco de desemprego entre a população assalariada, mas é difícil essas políticas conseguirem gerar um contingente significativo de empregos necessários. BBC Brasil - Quais as alternativa de política para o Brasil? Coutrot – As alternativas são bastante discutidas pelos economistas brasileiros. O primeiro passo seria começar uma política de controle da entrada e da saída de capitais estrangeiros de curto e médio prazo, redistribuição de renda dentro do país para favorecer o crescimento do consumo do mercado interno, reduzindo os encargos da dívida e do superávit primário, favorecendo o crescimento da demanda interna. Obviamente seria uma combinação de política bastante diferente da neoliberal que está sendo adotada agora. BBC Brasil – O senhor quer dizer que para o Brasil crescer e criar empregos seria preciso mudar totalmente a política econômica? Coutrot - Teria que realmente tomar um rumo diferente. O país está completamente imerso nos fluxos internacionais de capitais, e está deixando a política econômica ser determinada pelos investidores financeiros do mercado internacional de capitais. No caso do Brasil, isso leva realmente a orientar as prioridades econômicas para os setores exportadores, os setores financeiros. O setor exportador, para poder conseguir divisas para poder pagar os encargos financeiros da dívida, e o setor financeiro, porque ele rege os rumos do sistema econômico. Teria que ter uma virada da política econômica para um crescimento mais auto-centrado da economia brasileira, o que é perfeitamente possível, não precisa uma ruptura violenta. Precisa uma inflexão bastante firme, contínua da política macroeconômica. BBC Brasil – Aqueles que se opõem a uma mudança dizem que isso geraria a desconfiança dos investidores e uma crise como a que aconteceu em 2002 e 2003. O senhor concorda? Coutrot - Certamente e é por isso que precisaria tomar medidas para controlar a saída dos capitais estrangeiros. Seria necessário mostrar que a situação econômica do país não está mais viável para a população a médio prazo. As prioridades da política econômica têm que ser mudadas. O Brasil é um país com enorme potencial para crescer, reorientando o seu crescimento para suprir as necessidades internas. Não precisa se ter muitos capitais estrangeiros para construir casas, estradas, para aumentar a produção de alimentos ou de vestuário. Toda essa produção, que é muito necessária para a população carente, não precisa de recursos estrangeiros. Não precisa de capital externo ou alta tecnologia. Existe uma demanda reprimida muito grande de bens de consumo por parte da população brasileira, que não precisa de capital estrangeiro para ser atendida. E essa demanda reprimida poderia sustentar um crescimento econômico capaz de gerar novos empregos. BBC Brasil – O controle de capitais na saída seria um rompimento com a opinião dominante no mundo sobre a política econômica, inclusive com o FMI. O Brasil teria condições de fazer esse rompimento e se sair bem a médio prazo? Coutrot - Acho que um país como o Brasil tem enorme capacidade de fazer isso. Tem imenso mercado interno, tem uma abertura econômica em termos de comércio exterior relativamente pequena em relação a muitos países europeus, por exemplo, que são mais dependentes de comércio exterior e, repito, é um país que tem uma demanda deprimida de consumo interno imensa. É um mercado interno que só pede para crescer. Se tiver condições básicas, a população brasileira tem muita demanda para ser satisfeita com bens e serviços que não requerem investimentos pesados, que requerem um programa de crescimento econômico coordenado a nível do mercado interno. IA indústria brasileira e os empresários brasileiros têm plena capacidade de realizar um programa desse tipo. O problema atual da economia brasileira é que ela está voltada para priorizar a inserção no mercado financeiro internacional e a geração de superávits do orçamento e do comércio exterior para servir os interesses dos investidores financeiros e não do povo brasileiro. Leia no Dossiê Desemprego: |
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