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Atualizado às: 27 de abril, 2004 - 20h15 GMT (17h15 Brasília)
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Economista do BID defende salários flexíveis

Manifestação contra o desemprego em Brasília, em março (Foto:Dirce Pereira)
Manifestação contra o desemprego em Brasília, em março
Carmen Pages-Serra, pesquisadora sênior do Departamento de Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), defende maior flexibilidade dos salários no Brasil. Segundo ela, uma legislação trabalhista muito restritiva impede a redução dos salários quando a economia não cresce rapidamente, como é o caso brasileiro, e o ajuste do mercado de trabalho fica mais complicado, com aumento do desemprego.

A seguir, a entrevista que Carmen Pages-Serra deu à BBC Brasil:

BBC Brasil - Qual a influência do governo na criação de empregos?

Carmen Pages-Serra - De modo geral, os empregos são criados por empresas. O que o governo pode fazer é estimular as empresas a contratarem, e isso significa várias coisas: promover um bom ambiente econômico, no qual as empresas produzam, vendam e, portanto, precisem de empregados, e estabelecer condições que sejam atraentes para as empresas e boas para os empregados.
Há um espaço pequeno para que os governos criem empregos diretamente, porque isso é normalmente chamado de empreguismo.

BBC Brasil - O que um país como o Brasil deveria fazer para reduzir o emprego?

Pages-Serra - Para reduzir o desemprego, a economia precisa crescer rápido. Se isso não acontece, os salários têm que ser adaptados para que todos possam ter um emprego. É preciso ver se os salários são flexíveis o suficiente para que todo mundo que quer trabalhar consiga um emprego. Isso às vezes significa reduzir salários. É difícil, mas pode ser necessário para que todos tenham emprego.
Os sindicatos tendem a negociar salários para quem está trabalhando e isso deixa os desempregados sem ninguém que brigue por eles. Quanto mais insensível os sindicatos forem em relação aos desempregados, o desemprego persiste por mais tempo.
Se a legislação impede a redução de salários, fica mais difícil o ajuste.
Muitas vezes quem faz o ajuste são os trabalhadores informais, os que têm menos poder de negociação ou foram contratados há pouco tempo.
No passado, no Brasil e em outros países da América Latina, a inflação fez este papel de ajustar os salários. No Brasil, a legislação é muito restritiva. Uma legislação muito protetora pode ter um efeito inverso.

BBC Brasil - O desemprego nunca foi tão alto na América Latina. Por quê?

Pages-Serra - Primeiro, a região foi submetida a um severo choque, com forte queda na atividade econômica. Isso aconteceu quando esses países estavam tentando controlar a inflação.
O desemprego já é um reflexo de que a economia ficou mais pobre. É uma questão de escolha: se o ajuste é concentrado em poucas pessoas, que vão de um salário bom para zero, ou se o peso do ajuste é distribuído mais igualmente para todos.
Na Europa, por exemplo, se há um choque, há pouco ajuste nos salários, o mercado se move bem devagar, é bastante regulado. Mas o Estado tem muitas reservas e paga salário-desemprego.
Já nos Estados Unidos, se há uma recessão, o seguro-desemprego é muito baixo, os sindicatos têm pouco poder, o mercado é muito flexível e a recuperação é rápida.
Na América Latina, o mercado é extremamente regulado, os governos têm menos dinheiro, e no caso de uma recessão a economia não se ajusta. Quando a economia reage, algumas dessas pessoas talvez voltem ao mercado, mas alguns se tornam pobres permanentemente. Então, qual sistema seria melhor para a América Latina? O europeu ou o americano? Cada país tem que analisar e ver o que seria melhor.

Leia no Dossiê Desemprego:


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