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Depoimentos: Paquistaneses temem 'desintegração' do país | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A líder oposicionista e ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto foi sepultada nesta sexta-feira, no mausoléu da família, na província de Sindh, no sul do país. Logo depois de seu assassinato, em um comício na quinta-feira, o Paquistão viveu horas de caos, com manifestantes queimando ônibus e gritando palavras de ordem contra o presidente Pervez Musharraf. Pelo menos 19 pessoas foram mortas em protestos violentos realizados após a morte da ex-primeira-ministra. Abaixo, paquistaneses de diferentes regiões do país opinam sobre o assassinato de Benazir Bhutto e sobre a situação do Paquistão. Nabeel Arshed, estudante, Rawalpindi
Estava em Rawalpindi no momento do assassinato. Ouvi a explosão, mas ataques suicidas são rotina neste país, então não dei muita importância. Quando vi o noticiário, foi o choque da minha vida. Venho de uma família simpatizante da direita, mas todos nós sentimos como se nossa mãe tivesse morrido. Ela era uma força liberal, uma esperança para o Paquistão, vencida pela militância. Agora há um grande vácuo. Temo pela união do Paquistão. Ela foi até a província instável do Baluchistão e deu seu apoio ao povo. O que quer que fôssemos enfrentar, sinto como se ela tivesse o poder de unir as províncias do Paquistão. Agora, já podemos ouvir sobre os movimentos separatistas. Estas vozes estão ficando mais fortes agora que não há um líder nacional no Paquistão. Já estamos nos dirigindo para o extremismo. Esta foi a gota d'água: matar um símbolo da democracia. Iríamos votar em Benazir. Agora, o país está no caos. Asifa Hasan, pesquisadora, Islamabad
Quero chorar. Alguém matou minha esperança. Todos os que conheço estão sentindo uma perda pessoal, mesmo aqueles que não iriam votar nela e aqueles que pensavam que ela era corrupta. É como um cemitério lá fora, não há ninguém nas ruas. Parece que o Paquistão está mais perto da instabilidade, perto da desintegração. Não sei o que vai acontecer agora. Não estamos ouvindo nenhuma análise política. É um desastre de proporções tão grandes que as pessoas parecem não saber o que fazer ou falar. Trabalho para a rede Eleições Livres e Justas e estamos monitorando as eleições. Acredita-se que a votação vai acontecer. Mas acho que será adiada. Vejo meu país sendo empurrado para o desastre. A liderança civil é o que mantém o país unido. E isso acabou agora. Existe conflito no norte e isso está começando a se espalhar. Que tipo de reação poderá sair da província natal de Bhutto? Que Deus ajude o Paquistão. Mohammad Ibrahim Kumbhar, de uma fazenda pesqueira em Thatta, Sindh Estamos muito preocupados com nosso futuro. A família Bhutto sempre foi uma proteção para os pobres como nós. Agora nos sentimos desabrigados. E toda minha família votou no partido dela (Benazir Bhutto) e sempre votaremos. Agora, não vejo alternativa. Em Thatta, onde vivo, todas as propriedades do governo foram incendiadas. As pessoas sentiram a tragédia. Muitos deixaram a cidade para ir até Larkana, onde ela seria sepultada. Depois das orações da manhã, sei que vão ocorrer grandes problemas na cidade. Ontem (quinta-feira), nosso protesto não foi pacífico, mas isso ocorreu porque outros elementos vieram e causaram problemas. Sendo nativo de Sindh, sinto que agora o Paquistão não está mais a nosso favor. Se o Paquistão der a independência para o povo de Sindh, ficarei feliz. Ela era o símbolo da união do Paquistão. Isso agora não existe mais. Faisal Mamsa, psiquiatra, Karachi Na noite de ontem (quinta-feira), fiquei preso no trânsito, nas ruas de Karachi, por horas, testemunhando o tumulto e como as ruas ficaram inseguras. Fiquei chocado quando vi mulheres fugindo, pedindo ajuda, descalças e sem o véu, apenas fugindo e implorando que os carros as levassem para um lugar seguro.
Senti como se estivesse em uma guerra civil. A cidade estava sendo incendiada. O país ficou paralisado. Acho que isso é um símbolo de para onde o Paquistão está indo depois do assassinato. Acredito que o maior dano foi feito pelos seguidores do partido, tomados pela fúria, tenho certeza. Mas o que o homem comum fez para merecer isso? Costumávamos nos sentir seguros aqui. Companhias estrangeiras estavam investindo no Paquistão, as pessoas podiam sair à noite. Durante o governo de Musharraf, tivemos crescimento econômico. Depois da noite de ontem, acredito que este país esteja sendo entregue aos militantes. Detesto dizer isso, posso ser condenado ou morto, mas precisamos de medidas extremas de segurança para evitar o que quer que os militantes estejam fazendo. Tinha esperanças por Benazir Bhutto. O combate aos militantes era uma de suas pautas principais. Agora, pediram para que ficássemos em casa por três dias. É como um toque de recolher. A rua principal está vazia. Estou tentando localizar meus pacientes e alguns estão desaparecidos. Isso me faz imaginar o que aconteceu com este país. Uzma Sharon, técnica de laboratório têxtil, Lahore Ela era nossa esperança neste ano ruim. Ela era uma política experiente e agora não há ninguém com experiência o bastante para assumir seu lugar. Não sou muito interessada em política, mas ela parecia projetar uma grande imagem para o Paquistão. Era uma mulher e era forte. Nossa imagem em outros países é ruim, as pessoas acreditam que nossas mulheres são reprimidas. Mas nenhum dos homens deste país é tão qualificado como ela, ela teria sido uma grande candidata. Esses militantes não suportam uma mulher. Meu grande temor é que eles queiram reprimir os direitos das mulheres em todo o Paquistão. Não sei o que nossa geração mais jovem vai enfrentar agora. As jovens tinham tanto entusiasmo para participar da vida pública, agora elas podem ter que ficar confinadas em casa. Esta é a imagem do Paquistão mostrada pela imprensa: que usamos burcas, que não temos liberdade. Temo que, depois deste incidente, isso possa se transformar na realidade. Temo a talebanização de nosso país. |
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