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Ivan Lessa: Coconut Juice | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Passei décadas no Brasil e o que botassem diante de mim, em matéria de líquido, eu traçava. Da primeira mamadeira ao uísque com choro passando – e até hoje lá estou, graças a Deus – pelo guaraná. Eu só não tomava, ou tomaria, qualquer suco que fosse ou contivesse jaca ou quiabo. O resto, descia redondo, redondo. Por mais exótica e improvável a fruta. Quem toma suco de cupuaçu e açaí por que não tomará também de caçabaí ou de xiromexim? O fato destes dois últimos inexistirem é secundário. Inexistem por falta de imaginação nossa. Tivéssemos plantado árvores de um e outro, conforme sugeriu, vias travessas, Pero Vaz de Caminha, em sua lendária (legendária é a mãe, por falar nisso) carta, e hoje, quem sabe, os japoneses estariam de olho num e noutro, deles querendo se apossar e registrar legalmente. Todo esse prólogo é para dizer que eu só me iniciei na aprazível ingestão da água de coco depois de minha quinta década de existência. Por favor, parem de me jogar pedras! Não debochem deste pobre velhinho! Tenham pena de mim, isso sim. De mim que perdi meu tempo com refrigerante gasoso de uva (era uma uva, chamava-se Grapette e eu repetia), com Guará, bebida imitando o guaraná como esse rapaz que imita o Cauby Peixoto, com soda limonada e, mais tarde, passando a coisas mais fortes, nos anos-boleros de minha vida, até uísque com guaraná e cachaça com Coca-Cola (o notório “samba em Berlim”) passaram por estes lábios que hoje, nada mais tendo a perder, só dizem a verdade, nada mais que a verdade. Uma boa hora, já que estou falando de bebidas e drinques meio caôlhos, para abrir um parágrafo e mencionar, assim como quem não quer nada, que em muita terra triste cheia de gente deprimida bebe-se uísque com água de coco. Uma maldade com um e outro, digo eu, sorrateiramente introduzindo meu tema e minha confissão. Mudo de parágrafo e grito com toda força (não é muita) de meus pulmões para que o mundo ou pelo menos os seis leitores deste canto de página saibam: eu não gostava de água de coco! Vou repetir ainda mais alto, em caixa alta, em maiúsculas, o paspalhão, o débil mental, para que todos saibam o imbecil que fui: EU NÃO GOSTAVA DE ÁGUA DE COCO! Agora podem vir de pau na mão. Redenção londrina Depois de umas boas (oquêi, razoáveis) décadas em Londres, provei de nossa água de coco. Só de safadeza, para poder debochar do que deixei para trás, junto com a falta de água e de segurança. Provei numa daquelas embalagens quadradinhas e prateadas que, leio agora nos jornais, querem impor aos simpáticos quiosques de Ipanema e, sei lá, Copacabana. Foi uma revelação. Exagerando, posso dizer que minha alma caiu no chão em prantos. Chorando de agradecimento e lamentando os anos – tantos anos! – perdidos. De passagem rápida pelo Brasil, ainda recentemente, entupi-me de água de coco em todos os quiosques. Soube-me melhor ao paladar a água de coco do que os amigos que há séculos não via, digo em português pedante para homenagear, este sim, precioso líquido. Não mais encabeça minha lista de saudades o xarope de groselha mas sim a água de coco. E aí a história acaba bem: descobri no indiano (um paquistanês, como sempre) da esquina o Coconut Juice da fábrica Foco, de origem tailandesa. Vem em lata e custa apenas 99 pence, perto de 50 centavos de dólar. Comprei todo estoque de seis latinhas de 350 ml e ele me jurou de pés juntos que vai receber mais e guardará tudo para mim. Só para mim! Assim como quem não quer nada, muito à sua maneira, o Brasil veio e, à tailandesa, me pegou, de forma agradabilíssima, pelo pé. Fosse sempre assim com nossas coisas e graças. |
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