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Estranhos em casa | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Eram três os que invadiram meu apartamento logo às 8 e meia da manhã de segunda-feira, dia 13 de novembro. Tocaram a campainha, eu de meu terceiro andar, mesmo dando pelo videofone com três camaradas que eu nunca vira antes, apertei a tecla que abre a porta que dá para a rua. Com passos pesados, subiram os três os dois lances de escada. Foram chegando e ficando à vontade. Como não disponho dos ubíquos sistemas de circuito fechado de televisão, não os gravei nem para a posteridade nem para a polícia. Fui no olho, que não é mais aquele que foi um dia. O ouvido, no entanto, ainda funciona direitinho. Reconheci logo o sotaque: ingleses os três. E aqui do sul mesmo. Beirando o “cockney”, conforme se dizia. Tentem ouvir mentalmente três Michael Caine agitados e falando alto demais e terão uma idéia de como andava o som, a fúria e a decibelagem lá no meu “flat”. Eram altos, sobre o forte e, claro, jovens, que, para mim, o mundo todo, de repente, ficou jovem, excessivamente jovem. Menos de 50 anos e é tudo broto, tudo garotão. Agenda obscura? O que queriam comigo os três “cockneys”? Abro o jogo, não era assalto ou seqüestro-relâmpago. Tratava-se apenas da equipe que, durante toda esta semana de novembro, ficará das 8 e tanto da manhã até as 4 e meia da tarde em minha casa, apartamento ou “flat” (chamem do que quiserem mas é onde eu vivo minha vida) consertando o teto do banheiro. O banheiro foi ator de um desses filmes de desastre. Seguinte: lá por volta de fins de agosto caiu um bruta toró aqui em Londres. Era um sábado. Sem esperarmos, eu e minha mulher, demos um pulo deste tamanho na poltrona da sala (estávamos vendo uma dessas séries americanas com crimes horrendos sendo dissecados por legistas exóticos) quando ouvimos um estrondo vindo da direção do banheiro. “Uai, sô!” disse para os meus botões e os de minha mulher. Pois é, nas horas críticas sempre baixa um espírito mineiro em mim. “Uai, sô!”, mineirei de novo. “Será que caiu um raio na cozinha ou no banheiro?” São ambos – cozinha e banheiro – adjacentes. Com o coração aos pulos ou na mão – agora não me lembro quem de nós dois foi de que lugar-comum cardíaco --, corremos em direção da barulheira. Era no banheiro. Cujo teto tinha caído. Pelo menos a parte bem em cima da banheira. Levando de roldão, na queda, o chuveiro. “Que sorte nenhum de nós dois estar tomando banho” não foi o primeiro pensamento que nos ocorreu. Só pânico e, de minha parte, mais fluente no gatilho, uma boa previsão da chatice infinita que viria pela frente. Um resumo difícil Era em essência simples o drama: aquele troço que eu não sei o nome (eu não sei o nome de nada das coisas domésticas, a não ser “geladeira” e “microondas”) e por onde escorre, do lado de fora das casas a água de chuva, entupira, enchera o espaço vazio que separa meu (nosso, de minha mulher e eu, deveria ter deixado claro desde o início) “flat” do da vizinha de cima, uma senhora corretora de ações, até onde sei, e aí deu-se a “melódia”, para quem se lembra dessas expressões. Durante dois meses lutei, por telefone e correio eletrônico, com os administradores da propriedade, isto é, da casa toda, já que o nosso, corrijo agora, “flat” está arrendado para nós até o ano de 2085 e, no caso, o problema era da manutenção de parte externa da habitação. Tudo isso em 120 telefonemas e outros tantos emails. Afinal, admitiram responsabilidade, entraram nas miudezas de lidar com a seguradora, obtiveram um orçamento para o trabalho todo (6 mil dólares em moeda que vocês conhecem) e, finalmente, logo num dia 13, começaram as obras, entraram em cena os 3 tipos que inauguraram estas linhas. Dizem que na sexta estará tudo novo em folha. Conforme se diz em “cockney” brasileiro: du-vi-de-o-dó. Infelizmente, peguei uma certa intimidade com o mundo e a vida. |
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