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Atualizado às: 30 de outubro, 2006 - 10h08 GMT (07h08 Brasília)
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Sapo verde amazônico
Ivan Lessa
Semaninha agitada essa que passou. Para quem, como eu, vive em dois países diferentes, um da realidade (o Brasil), outro da imaginação (o Reino Unido), não faltou assunto.

Por aqui, dois foram as principais manchetes. Vamos por ordem: primeiro, o litigioso início do divórcio Heather Mills e Paul McCartney, com uma baixaria danada indo parar nas primeiras páginas dos tablóides, mais ação judicial acrescida de pura fofoca (uma combinação saborosa ideal) voando para cima e para baixo.

Em segundo lugar, pesquisas que anunciaram o mais baixo índice de aprovação em 20 anos do partido Labour (podem chamar de trabalhista) entre o eleitorado.

Aí começa a esquizofrenia, no sentido popular e, obviamente, errôneo da palavra.

Domingo, votou-se no Brasil e Lula foi reeleito. Votou-se aqui também, no consulado brasileiro de Londres: cerca de 1500 expatriados dos 3500 que se registraram.

Disso tudo, que não é pouco, prefiro ficar com os acontecimentos de terça-feira, 24 de outubro, ocorridos no parlamento, em Westminster, onde houve mais emoção e até mesmo um pouco de Brasil, para matar as saudades.

Os 'hoodies', esses desconhecidos

Pesquisas recentes mostraram que os britânicos mais velhos têm medo de adolescentes. São esses pré-julgados e condenados à masmorra imaginária de todos pelo simples fato de serem jovens.

O que significa, perigosos. O que significa também, negros. Portanto, jovens negros perigosos. Gostam eles de se encarapuçar – para não sentir frio nas orelhas, conforme alegam alguns – daí sua alcunha, “hoodies”, encapuzados.

Na terça-feira, a comissão parlamentar que investiga uma possível relação entre jovens negros e crime receberam em audiência, para ouvir e aprender, a plebe rude em pessoa.

Os brancos, azedos todos, sorriram apesar de saberem-se pisando em ovos ou atravessando campo minado, conforme observou o colunista Simon Hoggart, do jornal liberal “The Guardian”, que nos apresentou (ou pelo menos a mim) à “famosa” senhora Camila Batmanghelidjh (nem pense em pronunciar), diretora da instituição “Kids Company”, ou “Companhia da Garotada”, que tenta socorrer as crianças vítimas de lares pobres, onde campeiam, junto à pobreza, as drogas, o álcool, o crime.

A senhora – chamemos só de Camila, para simplificar – é o cérebro por trás da campanha “abrace um hoodie” do líder da oposição, o conservador David Cameron.

Nosso bom Simon Hoggart, em sua coluna parlamentar diária, neste ponto tocou no nome da querida Carmen Miranda, dizendo que madame Batman (simplificando) faz “a pequena notável” parecer Jane Eyre, suave e recatada governante do romance de nome idêntico de Charlotte Bronte.

Foi mais longe o ilustre escriba político. Comparou o vestido da dama em questão a uma tenda e seus brincos a vastos penduricalhos de ouro.

Enfim, o sapo

Mas e o sapo amazônico? O sapo amazônico foi citado por Shaun Bailey, um jovem negro que trabalha com jovens negros que começam a seguir as perigosas sendas do crime desta vida.

O bom Bailey, em sua preleção, disse que a comunidade negra britânica sofre do que ele chama de “a síndrome dos sapos verdes amazônicos”, ou seja, segundo ele, “se alguma coisa dá errado com o sistema ecológico amazônico, são os sapos verdes os primeiros a morrer.”

Esses sapos verdes amazônicos me lembram aqueles macaquinhos cariocas do episódio dos Simpsons no Brasil. Alguém aí já viu um?

Qual a solução então? Diante da pergunta, consta que tanto “dona” Camila quanto o jovem Bailey limitaram-se a sorrir enigmaticamente, uma característica típica do multiculturalismo. Os sapos verdes amazônicos são uniculturalmente inexpressivos.

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