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Atualizado às: 23 de outubro, 2006 - 09h42 GMT (06h42 Brasília)
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Ivan Lessa: Velhinhos do barulho
Ivan Lessa
São os velhinhos aposentados. Que eles chamam de Old Age Pensioners. OAPs. Estou nessa, embora prefira me referir e que se refiram a mim como “na terceira idade”. Soa melhor. Não tenho pensão de coisa alguma. Fiz refeição numa ou noutra. Só.

Tenho umas economias que rendem uma titica, mas já fiz as mórbidas contas: se eu apertar ainda mais o cinto, dá para viver mais uns 5 aninhos só vendo televisão, relendo os livros que tenho e ouvindo com a atenção que meus ouvidos OAPs permitirem a discarada que acumulei durante os últimos (mais ou menos) 60 anos.

Importar xarope de groselha? Nem pensar. Os velhinhos e velhinhas tem certas vantagens. Quando completei 65 anos aqui, ganhei o que eles chamam de “Freedom Pass”, tal de “passe da liberdade”. O passe já foi apenas cartão de aposentado, simplesmente, o que era mais digno e condigno com a verdade.

Dava e dá direito a viajar de graça em ônibus e metrô, contanto que não seja na hora do rush, para não ocupar lugar diante dos que ainda têm que trabalhar para cavar a própria sepultura. Um bom desconto em teatro, metrô e viagem de trem. Sempre sem ser no tempo dos que se encontram na flor, ou primeira e segunda idades.

Sempre simplifiquei, pragmático que sou: para mim, o tal do “passe da liberdade” não passa de certificado de velhice. Pelo menos, até agora, os mais velhos, meus companheiros aposentados e com pensão, ainda merecem do resto da jovem e tola população um certo respeito.

Cabelo branco é cabelo branco, careca é careca e pança é pança. Quando velhos e velhas deixarem de impor respeito, vão derrubar no chão, chutar a cara e levar a carteira e tudo mais que estiver dando sopa. De vez em quando acontece. Infelizmente.

Para variar, andaram por aí, de alto a baixo no Reino Unido (e para os lados também) fazendo pesquisa, que isso é razoavelmente bem pago e, dizem, oferece boas pensões.

A pesquisa foi sobre os anseios que ainda ocupam a mente, o peito e o et cetera daqueles e daquelas com mais de 65 anos. 1500 deles e delas. Algumas surpresas. Ao contrário do que se esperava, não são – não somos? – críticos contrários aos modos de vida da garotada. Pelo contrário. Morrem de inveja.

O que eles e elas querem mesmo é sexo, roquiendirôl e birinaites. A maior parte diz que, se pudesse viver sua vida de novo, peitaria com mais vigor os patrões, além de mudar com mais freqüência de emprego.

Sexo, sexo, sexo

A questão mais popular entre os velhinhos (dou o nome aos bois, ou boys) é, assim como entre vocês, garotada, sexo. Seguida de sexo e depois de mais sexo. Todos eles lamentam não terem tido mais sexo. Todas elas também. Culpam os modos e costumes do pós-guerra, quando tiveram de enfrentar outros inimigos: a hipocrisia da sociedade e um suposto código de boas maneiras.

70% da turma gostariam de ter queimado mais incenso no altar de Vênus, para usar de um eufemismo que, mesmo por volta de 1945, já caducava. Uma boa quantidade de gente abre o jogo para valer: 300 deles (nunca esquecendo que há elas aí) preferiam ter se casado com outra pessoa.

Uma surpresa. Depois de sexo, sabem o que eles mais gostariam de ter feito? Viajar. Inglês, ou britânico, é assim, uma gente doida para se mandar mundo afora. Coisa de povo ilhéu. Também são meio sovinas os grisalhos senhores e senhoras: gostariam de ter gasto menos dinheiro com bobagem (e o que é que eles chamam de “bobagem”?) e comprado a casa própria mais cedo.

Felizmente são contraditórios e não fazem sentido os OAPs. Que é para acabar com essa história de que, com a idade, vem a sabedoria. De garantido, vem mesmo é reumatismo. Os velhos uma hora querem uma coisa, outra hora querem outra. Por exemplo: 32% das senhoras pesquisadas preferiam não ter perdido a virgindade com a idade que perderam. Mas gostariam de ter feito mais sexo, confere? Tãotá.

Diz o ditado que a juventude é desperdiçada com os jovens. A velhice também é desperdiçada com os velhos, é o que se depreende.

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