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Ivan Lessa: Nova batalha de Trafalgar | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A única graça da praça Trafalgar é ficar vendo as pessoas que tiram foto da praça Trafalgar. Tudo de camerazinha digital apontada para a coluna de Nelson, ou esperando, quase sempre em vão, que um pombo pouse na cabeça de um membro da família. Parece que essas coisas são impagáveis em certos países. Eu mesmo tenho uma foto com o filho do Millôr Fernandes, na praça, lá por volta de 1969, tirada por “lick-lick” (é fotógrafo lambe-lambe, em inglês), em que nós dois, muito jovens ainda, claro, parecemos estar envolvidos numa versão barata, baratíssima, do filme “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock. Sejamos francos. Pombo, além de uma sem graceza única, é um bicho danado para sujar tudo: rua, praça, cidade, o que puserem embaixo. Quem mora no Rio sabe muito bem a verdadeira origem do nome das ilhas Cagarras – e sim, trata-se precisamente disso que vocês estão pensando. Não foram só pombos, evidente, gaivota também contribuiu com mais de 60% de seu produto natural para batizar as ilhas, que – dou mais uma dica – rimam com “apagadas”. Pegaram? Quem não sabia? E, já que estou pondo as coisas a limpo, revelo logo que “lick-lick” não é como os ingleses chamam os fotógrafos de praça. Eles chamam de fotógrafos de praça mesmo. A declaração de guerra Desde que tomou posse como o primeiro prefeito eleito de Londres, e por maioria esmagadora, Ken Livingstone, em seu plinto (é a base quadrangular de estátua), ou plataforma, prometeu lidar com dois problemas cruciais da cidade: o engarrafamento no trânsito e a porcalhada feita pelos pombos da praça Trafalgar. Um parêntese: Trafalgar é Trafalgar devido à vitória obtida pelo Almirante Horácio Nelson contra uma frota hispano-francesa, logo ali a oeste do Cabo Trafalgar, na Espanha, no dia 21 de outubro de 1805 (alguém está prestes a soprar velinhas). Parece que foi do barulho e decisiva. Só tem uma coisinha: por que é que nós, brasileiros, que nada tivemos com a história, a não ser acolher, e bem, a família real portuguesa em fuga desabalada do pau, por que é que nós pronunciamos à inglesa? Tra-fál-gar? Não. É Tra-fal-gár mesmo. Celebremos direito essas belicosidades. Fecha o parêntese. Aos pombos, aos pombos! Ken Livingstone, após seis anos de batalhas, pode dizer que domou, parcialmente, mediante pedágio (ou “carrágio, para cunhar um termo), o engarrafamento no centro da cidade, mas, em matéria de pombo sem modos agindo na praça aquela (pronunciem como quiserem; vocês são livres), tudo indica que os pombos vêm levando alguma vantagem. Ou, pelo menos, estão empatados com a prefeitura. As aves, que Livingstone batizou de “ratos com asas” (uai, mas isso não é morcego?), vêm ameaçando borrarem agora o cargo de prefeito de Londres. O povo, esse nobre eleitorado, está pondo em dúvida a tática e o custo dos embates. O prefeito botou em ação um plano diabólico: tacou dois falcões no encalço, na caça aos pombos. Estes mercenários alados, revelou agora um relatório, mataram apenas 121 pombos desde 2003. Não era para matar pombo nenhum. Apenas espantar os bichos para outros lugares, outras praças, de preferência francesas ou espanholas. E isso sem falar no preço da guerra: quase 500 mil libras aos cofres londrinos. A prefeitura se defende dizendo que, nestes 3 anos, 2.500 pombos escafederam-se, o que não é pouca… pouca bosta de pombo, digamos assim. Ainda não começaram as manifestações coletivas de protesto. Mas já se sopram comparações com a guerra, digo, invasão do Iraque. |
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