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Ivan Lessa: A salvação da Amazônia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Estão vendo? Nem foi preciso recorrer aos préstimos globo-concertais de Bob Geldorf ou Bono. A Amazônia está com seu futuro garantido. Lá só vai ficar valendo o que lhe é natural: índio, bicho e ave. Os gananciosos, atrás de um mogno ou inaugurar fazenda com piscina e sauna, vão ficar a ver seus navios petroleiros enquanto o sol se põe lá por trás dos Dois Irmãos, no Rio. Ou tomando banho de cachoeira nas Maldivas. Amazônia? Babau, seus bocós de mola, para empregar um termo dos mais ofensivos que só os mais velhos, feito eu, e safados, também feito eu, sabem usar. Viraram, mexeram e, sem tocar numa araucária ou mico-leão-dourado, chegaram a uma boa solução. Ou, pelo menos, início de solução. O importante é dar o pontapé inicial. E não precisa ser em posseiro ou índio corrupto bêbado. A solução é informática, como não poderia deixar de ser nestes dias cibernéticos que se deletam um após o outro. Mais: a idéia criou raízes, e agora as espalha, aqui no Reino Unido, onde floresta tropical, principalmente sendo amazônica, goza de tanta popularidade quanto uma banda nova de rock. Amazônia sem fronteiras O que vai haver é o seguinte: um ex-membro do governo Labour, Frank Field, aliou-se àquilo que é vulgarmente conhecido como um “benfeitor” (do outro partido, o Conservador) e, juntos, vão vender lotes pela Internet. O esquema bolado por Field e o “benfeitor” (tiremo-lo do injusto anonimato) conservador, lato sensu, Johan Eliasch, oferecerá ao público pagante, a oportunidade de adquirir, a preços módicos, pequenas áreas, ou lotes, da Amazônia. Um artigo numa publicação tradicional de esquerda, a New Left Review (não pode ser de direita com esse nome), informa que o projeto, que batizaram de “Cool Earth”, dará a todos, que assim o quiserem, a oportunidade de passar por cima das complicadas burocracias governamentais. Confesso que não me agrada essa história toda. A começar pelo nome. Não se faz gracinha com essas coisas. Principalmente coisa desse tamanhão e importância. Chamar de “Cool Earth” é querer dar dois recados com duas palavras: que é bacaninha se aventurar nessas terras, que é uma forma de se evitar o aquecimento mundial. Além do mais, vão colocar – ou tentar colocar – microfichas naquelas árvores todas, como se fossem cachorros, de forma que um satélite possa localizar uma parte individual da floresta, mostrando-a em nossos laptops mediante a digitação de um código. A maior parte das pessoas quer é ver mulher pelada em seus laptops ou jogatina em seus laptops e não árvores, por mais imponentes que sejam. Não param aí minhas objeções. Fiquei uma fúria quando soube que o multimilionário conservador, e Conservador, já comprou mais de 16 mil metros quadrados de floresta amazônica. Comprou de uma companhia madeireira, com o objetivo expresso de proteger fauna e flora da região. Podem me chamar de cínico, mas desconfio de todo multimilionário, além do mais conservador e Conservador. Multimilionário só chegou lá devido à sua pouca intimidade com o altruísmo. Por fim, e por uma vez na vida, desfraldo nos ares de South Kensington meu imaginário lábaro estrelado e berro em português mesmo, mas com legendas em inglês, “A Amazônia é nossa! Vão salvar baleias, pascácios!” |
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