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Ivan Lessa: Jornalada | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Minha carteira de trabalho diz que eu sou jornalista. Também tenho – e plastificada – uma outra que garante que eu exerça, ou exercia, a profissão. Na verdade, pela foto, antiga como o quê, eu deveria receber imediata voz de prisão por desacato ao bem-estar comum, desrespeito à moral e aos bons costumes, falsidade ideológica, qualquer coisa assim. Um horror. Isso significa que, não sendo um cidadão que guarde mágoas ou se sinta ressentido, eu deveria, ao menos, devido a meu background, conforme se diz, sentir uma certa empatia com os jornais. Na verdade, eu cada vez me chateio mais com os jornais. Qualquer jornal. Em português de Portugal ou do Brasil, em inglês dos Estados Unidos ou do Reino Unido, em francês, italiano, espanhol, qualquer língua em que dê para eu dar uma chegada lá e enganar. Sim, claro, tem a ver com o desespero sentido pelo estado do mundo em que vivemos -- ou morremos, mais do que vivemos. Mas aprendi, e deve estar lá, em letra miudinha, no reverso de minha carteirinha plastificada, que a missão do jornal, e por subsequente (jornal adora essa palavra) do jornalista, é informar. Vá lá que seja. Informação, eu topo. Atacaram ali, morreu fulano, tal time não se classificou. O resto é – e serei brutalmente franco – tremenda enganação. Principalmente no trivial ligeiro (coisas das celebridades) e no opinativo. Opinião, gente paga para ter opinião, editorializar, explicar (supostamente) porque isso e porque aquilo outro, francamente não dá mais. Na minha idade, não se confia mais em ninguém. Um blog dos mais bisonhos é melhor. Prefiro aquele idiota decantando as glórias de seu umbigo do que o outro idiota explicando onde Bush ou Blair ou Osama erraram. Sou da turma de que "jornal já era". Se eu quiser saber a que hora começa a primeira sessão do filme de estrondos, pancadarias e explosões, ali na esquina, no meu bairro, vou ao laptop, que é mais crível e me suja menos as mãos. No entanto, moro num país – é o Reino Unido, para os maus informados – onde há 13 jornais de suposta qualidade me oferecendo o que juram ser a mais variada gama de opiniões. Mais variada gama é de palpites. Opinião sai mais caro e, além do mais, já teve uma revista no Brasil com esse nome, que foi útil no pouco tempo que durou. Não bastasse, agora estão com a mania de jornal grátis tacado sem a menor cerimônia na mão da gente ao entrar no metrô. Já tinha um, formato tablóide, precisamente com esse nome, Metro. Dava para se folhear a caminho de casa ou do trabalho, e depois deixar no banco para o próximo que viesse. Deve ter sido um sucesso, já que agora lançaram o London Life e que vai de bordoada para cima de outro, também grátis, o terceiro da turma, tal de London Paper. Os dois juntos somam 400 mil exemplares e competem com o outro único jornal londrino (este pago) o Evening Standard, que aliás faz parte do grupo do London Life, e vende 300 mil exemplares, o que aqui é pouco. A média de leitura de cada um dos três jornais gratuitos é de 20 minutos e seu sucesso depende daquela inquieta, aquisitiva e chatérrima faixa etária que fica entre os 16 e os 34 anos. Que sejam todos muito felizes, eu seguirei lendo o Guardian, que compro há quase 30 anos na porta do metrô e que levo quase que o dia inteiro para ler (culpa parte minha, parte do jornal) e uns 10 segundos para me esquecer de cada linha de notícia ou opinião. Os novos jornais asseguram a seus leitores que não sujam a mão. Com minhas carteiras profissionais me dando respaldo, sugiro: desconfiem da afirmação, gente, desconfiem. |
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