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Ivan Lessa: Correrias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Brasil é um país estranho. Primeiro porque há nele, com todo mundo prestando muita atenção, o Rio de Janeiro, conhecido por seu apelido, Rio. O Rio é uma cidade estranha. Ela existe mais para mim do que o resto do Brasil. Existe até mais do que São Paulo, e olha que eu nasci em São Paulo. Isso é porque passei a maior parte de minha vida no Rio. Minha vida de garotão a homem feito, passando pela chatice da adolescência. No total, com este tempo todo de Londres, estou quase empatando. Mas vou e abro logo o jogo: sou um dos poucos 500 mil brasileiros em Londres sem passaporte da Comunidade Européia e em estado legal de residência. Mas ao Rio. Cidade estranha. Então tá. Tem os cartões postais, tem aqueles crimes todos, tem um doce balanço, tem vozes baianas decantando suas graças e tudo mais que o senhor ou a senhora aí conhecem. Se eu fosse fazer uma lista (mas prometo não fazer) de coisas que mais me lembram o Rio, além do lugar-comum de seus lugares-comuns, eu botaria lá em cima, pelo menos nos cinco primeiros lugares, o trânsito. Minha Nossa Senhora! Aquilo era uma loucura! E loucura continua. Uma das poucas coisas que fiz racionalmente em minha vida foi dominar um volante. Eu podia dar vexame em bar, com mulher, diante de amigos e estranhos. Mas dirigindo meu carro, e olha que eu tive um Mercury Monterey 1957, além de um Gordini, coitadinho, dirigindo, dizia eu, era sereno, sensato e quem estivesse (ou esteve) do meu lado poderia confirmar sentindo-se seguro e em boas mãos: “O Ivan Lessa dirige muito bem”. Foi um dos maiores elogios que recebi em toda minha vida do Paulo Francis. Pensando bem, acho que foi o único elogio que recebi do Paulo Francis. Mas não vale, confere? Francis era bom de bola em várias posições no campo jornalístico, ou fora dele, mas diante de um volante era – difícil dizer isso de um amigo – um débil mental. Nunca dominou a arte nem do hidramatic, nem do fluid drive, nem da reduzida nas curvas que nos levavam a Petrópolis, para onde tomamos o rumo durante anos em tantos fins-de-semana. Brasileiros a se bater O que eu quero dizer é o seguinte: nós somos tetra e penta em uma porção de coisas, menos em dirigir carro em pista que não seja de Fórmula Um. A gente bate paca. A gente bate, mata e morre. A qualquer velocidade, em qualquer lugar onde dê para se fazer a besteira. Aqui no Reino Unido, eles fazem, principalmente no Natal, campanhas das mais decentes com pôsters, anúncios e comerciais de TV relembrando as vantagens de se dirigir sóbrio e com cuidado. Publicidade de impacto. Dói de ver. Que é como deve ser. Fico sabendo agora que, no domingo passado, no Rio realizou-se uma “corrida e caminhada pela paz no trânsito”, pois assim dizia o jornal que li, que me informava ainda tratar-se da terceira do gênero com o objetivo de promover uma “manifestação pacífica” (como assim? Queriam “manifestação agressiva”?). Três mil pessoas participaram dos 6 km de corrida e 4 km de caminhada. Os cinco homens e as cinco mulheres com os melhores resultados receberam troféus, assim como também as três maiores equipes. Todos os participantes receberam medalhas e, por sua vez, doaram alimentos não perecíveis. Não valia carro na animada manhã, que fique bem claro. Isso significa, trocando em miúdos, que é correr e andar depressa para incentivar os automobilistas a irem mais devagar e não morrer ou matar. Quanto aos alimentos não perecíveis, que não ficou claro a quem se dirigiam, creio que é uma forma moderna de se botar despacho na encruzilhada. Ôôô, meu Xangô. | NOTÍCIAS RELACIONADAS Ivan Lessa: O fim da gravata08 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Loura ambição06 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Juventude perdida04 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Lugar só em pé01 setembro, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Voltar30 agosto, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Férias24 julho, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: Calor21 julho, 2006 | BBC Report Ivan Lessa: A grama debaixo, o céu acima19 julho, 2006 | BBC Report | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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