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Ivan Lessa: Férias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Ai, o trabalhão de tirar férias! Nunca um jogo de palavras foi tão justificado. Minhas férias começam mais ou menos dez dias antes do embarque. Faço uma lista das coisas a deixar resolvidas. Ou seja, o que deixar pago e o que pagar depois. Outra lista das coisas a comprar. É tudo sobre dinheiro, conforme já apontaram Marx e Keynes. Confiro a lista e vou riscando o que já foi feito. Sim, a caneta está com carga nova. Sim, já estou armado de um caderninho novo (em espiral) para tomar notas. Parêntese: tomar notas é um dos pontos altos das férias. Três semanas e, de volta, abre-se o caderninho e lá está escrito algo mais ou menos assim: "Guaxo ni morg em frente do trom sitora". Só. E absolutamente indecifrável. Apesar disso, o caderninho é um dos pontos altos dos preparativos. No passar pela farmácia, pegar a remediarada: para desarranjos, dor de cabeça, azia. Não contando, evidentemente, em aviar a receita dos remédios habituais, já passada pelo médico da família. Remédio para afinar o sangue, remédio para desobstruir o sistema venoso, remédio para manter o coração batendo firme, remédio para fazer muito pipi. Esse o trivial ligeiro, o feijão com arroz, da farmacopéia doméstica. Já que se está na farmácia, pegar desodorante, escova de dente nova, dentifrício e lâmina de barbear descartável, porque aquela enganação de lâmina com duas, três, quatro fileiras dá nos nervos por sua despudarada exploração. Comentar com o farmacêutico o fato. A essa altura, o farmacêutico já se tornou meu velho conhecido, íntimo de minhas mazelas e profundo conhecedor de meus hábitos, da sala de banhos à sala de entrada, e concorda com tudo o que digo, além de ter várias sugestões a fazer. Na saída, trocamos cartões de visitas. E ainda… Falta o tintureiro. Deixar lá duas camisas e duas calças para lavagem a seco. Separar a leitura de férias. De preferência, apenas brochuras, porque pesam menos e não tem importância se molharem à beira da piscina. Preparar o "notebook", tinindo de novo, para que funcione em terra dos outros. Checar tomadas, fiações, consultar meu guru informático. Achar normais as palpitações. Tentar não ligar para o frio constante na boca do estômago. Ah, sim, eu ia esquecendo (sempre se esquece alguma coisa quando se sai de férias). É para eu não deixar de avisar o rapaz que vai ficar tomando conta do apartamento e da gata que, aos sábados, ela tem o equivalente à nossa feijoada ou ida à churrascaria: há que se abrir para ela uma latinha de atum. Vêm aí, garantidas, algumas semanas de preocupações. Não pensar de jeito algum no inferno que será a noite de insônia na véspera do embarque. Marcar o táxi, descer com as malas, torcer por um bom trânsito, passar pela brutal triagem do aeroporto, rezar para não haver atrasos, filas intermináveis, calor insuportável. Daí então, se possível, pegar o avião e começar a se preocupar com a chegada. Abrir o caderninho (em espiral) novo e começar a tomar nota do que fazer e não fazer nas férias. Desistir. Ler a revista da linha aérea que me transporta. A página 17 contém um fascinante primeiro parágrafo de um artigo sobre vinhos portugueses, que merece pelo menos 15 minutos de leitura atenta, até ser dado o sinal de que se pode desapertar os cintos de segurança. As férias estarão então apenas começando. Falta a volta. Para citar a surrada citação de Joseph Conrad, "O horror, o horror!" |
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