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Ivan Lessa: A língua no mundo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Quer dizer então que você quer se engraçar, ou fazer amizade, com fulano ou sicrana? Tudo bem, nem só de pão vive o homem, para citar um ditado que pouquíssimo tem a ver com o que eu vinha dizendo. Sejamos docemente platônicos. Não há segundas intenções na sua tentativa de aproximação. Não é frescura, não é desejo de conquista. Trata-se da velha e humana solidão. Você quer conquistar alguém só para ter uma companhia com quem trocar figurinhas. Trocar figurinhas é a terceira coisa mais importante nesta vida. Com que então você quer se aproximar de outrem. (Cuidado com qualquer pessoa chamada "Outrem". Ela só vai lhe causar dissabores.) Daí então você procura saber dos interesses da pessoa em questão. De seus gostos em cinema, música e literatura. Na primeira oportunidade, você vai e puxa o assunto para o resultado de suas sub-reptícias pesquisas. Sacará então, como o pistoleiro saca da pistola, perguntas mortíferas e cativantes tais como: - Puxa vida, como escreve bem esse tal de Marcel Proust, hein? - Não perco retrospectiva do Fellini. - Eu sou muito mais a banda do Blast ‘em do que a Hotplay. - Não tem por onde, sacanagem isso que fizeram com o Zidane. Sussurrando verdades Tudo bobagem. Tudo em vão. O que você tem que fazer é fofoca. Mexerico. Espalhar boatos e rumores. Sempre procurando manter bem alta a bandeira da bandalheira. Fofoca, mexerico, boato e rumor, mas sempre em detrimento de alguém. Amanhã, no escritório, você vai lavar as mãos, volta à mesa de trabalho e é saudado por risinhos contidos e olhares furtivos. O que foi que houve? Simples. Alguém tentou se aproximar emocionalmente de outro alguém mediante uma especulação maldosa passada adiante como fato. Nem tente negar que, além de não saber de que se trata, você estará enfrentando a ciência, a mais recente descoberta dos psicólogos a respeito dos mistérios insondáveis (mas cada vez mais sondados) da mente humana. Brad e Melissa Ainda agora professores de psicologia da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, conduziram uma experiência, dita científica, fascinante. Fizeram com que dezenas de pessoas ouvissem, assim como que por acaso, uma gravação contendo um mexerico qualquer a respeito de dois personagens fictícios, um homem e uma mulher. Chamemos esses dois de Brad e Melissa, para ficarem parecendo essas pessoas que figuram nas telenovelas diurnas norte-americanas. A seguir, sempre seguindo métodos científicos rigorosos, deixaram com que o grupo se espalhasse e ficasse comentando entre si o que achavam de Brad e de Melissa. Seguiu-se a descoberta fascinante: as pessoas do seleto grupo que mais antipatizassem com Brad ou com Melissa mais tinham em comum, mais se entendiam, melhor selavam o início de uma suposta amizade. Embora, cá entre nós, essa gente… Mas deixa isso pra lá. Em outras palavras, o que nos une é a maldade, é o deboche, é a alegria diante da desventura dos outros. Extrapolo, evidentemente, mas alguns anos de ódio aos Brads e às Melissas deste mundo me fizeram um conhecedor da alma humana. Tenho intimidade com a torpeza que nos cabe carregar e, sempre que possível, com outro safado feito nós, com ele compartilhar. Ou com ela compartilhar. Essa Melissa é fogo. |
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