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Ivan Lessa: Por quem torcem meus operários? | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A casa onde moro tem quatro andares. O meu é o terceiro. Sempre fui homem de sétimo andar para cima. Acontece que, quando cheguei a Londres para morar, só havia uns 30 e poucos “sétimos andares para cima”. Tudo bem. Sem praia na cidade, eu topo. E lá estou, em meu terceiro andar, há mais de 28 anos. Com as chatices a que todo sujeito de terceiro andar está sujeito. Ou seja, há gente morando no quarto andar. Há gente morando no segundo andar. Não que eu as ouça depois das dez da noite, ou mesmo antes disso, ou que com eles confraternize na escada ou na entrada conferindo a correspondência dos cinco apartamentos. Ah, sim. Eu ia me esquecendo. Tem ainda um apartamento abaixo do nível da rua. É o chamado basement. Ou era o basement. O mercado imobiliário mudou o nome para garden flat, que o torna mais atrativo, embora mais distante de sua plausível realidade. De qualquer forma, para nós, os do acima do nível da rua, ele sempre será o basement. Tratamos bem quem lá mora, mas – e sou brutalmente franco – não consigo distinguir direito as feições dessa gente e não tenho, nestas quase três décadas, a mais vaga noção de quem ou o quê sejam. Chato é quando tem reforma na casa. A senhora que morava no térreo morreu, devido ao adiantado da idade, aflição que nos atingirá a todos, não importa nosso andar, seja porão ou sótão. Daí então que os donos da propriedade resolveram fazer obras. Derrubaram tudo, estão erguendo tudo. O barulho não chega a me incomodar. Começam na hora permitida por lei, 8 da manhã, encerram os trabalhos às 5 da tarde. Tudo bem. Ou tudo mal. Uma sujeira danada na entrada e a administração (sim, nós quatro, digo, cinco somos administrados) garante que é só até julho. Mais ou menos quando terminar a Copa do Mundo. Mistério a se desfazer Esse o meu problema no momento. Os operários. Como o mundo todo sabe, o mundo todo resolveu vir bater na Grã-Bretanha. Pelo menos o mundo da Comunidade Européia. Mais a gente boa da Migração Ilegal Futebol Clube. Os números das instituições fidedignas não mentem. Segundo a OCDE, ou seja, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a Grã-Bretanha experimentou, em 2004, o segundo maior influxo de migrantes legais de qualquer país rico, ou remediado, do mundo. Isso significa um aumento de 24%, mais ou menos 226 mil migrantes com intenções de, a longo prazo, por aqui ficarem. Os dados oficiais do governo britânico divergem um pouco: para ele são 494 mil migrantes a longo prazo. A grande maioria, não importa seu número, vem do leste europeu: Polônia e Rússia, em sua maioria. São eficientes, não exigem salários altíssimos, ao contrário dos locais (feito os torneiros mecânicos, digamos), mantém hábitos salutares e dão pouquíssimo trabalho à polícia. Meus operários, já que deles me apossei, são quase todos louros e de olhos claros. Prestei atenção no que dizem. Minha curiosidade estava meramente ligada à Copa do Mundo. Queria saber por quem torciam, já que a Rússia não participa dos eventos. Pelo pouco do papo deles que ouvi, não cheguei a conclusão nenhuma. Polonês não me parecia. Já frequentei um restaurante polonês e não tem nada a ver. Eles escutam os jogos (enquanto trabalham, afirmo), mas não atinei quais eram. Seriam croatas, sérvios-montenegrinos, equatorianos? Teria eu me enganado redondamente como essa nova bola que corre pelos verdes gramados dos campos alemães? Desvendei a charada outro dia, por acaso. Jogava a Ucrânia. Houve um gol da seleção ucraniana (houve mesmo?). Lá debaixo veio o velho uivo universal tão conhecido. Eram, são ucranianos. Eu morro de vontade de falar ucraniano para poder ir lá e perguntar pra eles: E o Ronaldo, hein? |
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