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Atualizado às: 07 de junho, 2006 - 10h09 GMT (07h09 Brasília)
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Ivan Lessa: O esporte de uma multidinha
Ivan Lessa
Mais do que em anos anteriores, preparo-me física e espiritualmente para a Copa do Mundo. Assim como nas duas últimas, digo para mim mesmo, "Esta é a última que eu pego. Deixa eu aproveitar".

Nesse espírito de "é este quadriênio só, daqui a quatro anos não tem mais", tenho acompanhado todos os jogos que posso. Pela televisão, é claro. Gosto do sol, gosto do mar e também de futebol, conforme cantou um dia Gilberto Alves.

Meu fanatismo, no entanto, já há muito que padeceu. Sou incapaz de sair de casa e ir até um campo onde se pratique o nobre esporte bretão. Notem que já começo a falar e a escrever feito comentarista esportivo de terceira divisão, prova de que definitivamente adentrei o tapete bege de minha sala de estar, instalei-me na poltrona e mirei o controle remoto para o aparelho de televisão e os jogadores que lá estarão fazendo belezas e besteiras pelas próximas semanas.

Não, não botei bandeira na porta de minha casa. Nem a da cruz de São Jorge sobre fundo branco, nem a verde, amarela e azul, com estrelinha e faixa com dizeres, contrariando o espírito das bandeiras. Meu lábaro estrelado é o hasteado na minha complicada paisagem interior (há uma zebra disparando pela esquerda num gramado, há um bode cercando um frango) e só eu e meus anjos e demônios, quando em campo, cantam o hino nacional do Canadá, porque ele é ainda mais bobo do que os outros. Cada um tem sua febre, cada um sabe onde lhe dói a Nike.

Exacerbando

Um amigo meu, com quem troco e-mails e converso no telefone várias vezes por semana, já que ele mora, muito corretamente, fora de Londres, andou comentando comigo outro dia mesmo. Disse que estava se "exacerbando" para esta copa. Sei exatamente o que ele quer dizer e, à minha maneira, é a mesma coisa que eu venho tentando fazer.

Estou lendo tudo que posso sobre o mundial. O que significa que poderia ir a um programa de televisão para responder sobre a seleção (lembram quando a gente primeiro chamou de "scratch" e depois "escrete"?) inglesa. Estou guardando todos os cadernos especiais oferecidos pelas revistas e os jornais que compro habitualmente. Lá estão as tabelas, fotos dos jogadores, pequenas biografias, dados inúteis que não acabam mais, rápidos palpites dos "realmente técnicos" ingleses. Está tudo guardado lá em casa. Quase começo álbum de figurinha.

A televisão vem me oferecendo uma boa cota de "exacerbação". Vi os documentários sobre as diversas seleções. Pude, mais uma vez, durante 60 minutos, detestar cada segundo de cada jogo da seleção alemã. Vi as compilações, essas sim gostosíssimas, com os melhores e os mais bizarros gols, os piores vexames, momentos inesquecíveis quase esquecidos. Bendito quem, pela primeira vez, se lembrou de apontar uma câmera e fixar no celulóide aquilo que, na hora, ninguém dava a menor bola mas, com o tempo, acabou tudo virando precioso. (Meu Deus, como os ingleses, jogadores e torcedores, usavam boné!)

Esporte e cultura

Outro dia passaram, e eu dei-me à pachorra (eu não disse que sou veterano de copas?) de acompanhar do começo ao fim, um documentário sobre a vida e os amores de Sven Goran-Ericksson. Foi bão. Sei até o nome de sua atraente companheira, a dra. Nancy Dell´Olio, italiana de nascimento, advogada por profissão. Ganhei a "Autobiografia" do Pelé escrita por dois jornalistas e o "Deus é brasileiro", do jornalista Alex Bellos, que historia como o britânico Charles Miller trouxe para nós o que já tentaram chamar de balípodo. Não cheguei ao ponto de ler livros sobre David Beckham ou Michael Owen. Mas se tivesse qualquer coisa sobre Ronaldinho, ou qualquer jogador em "inho", eu daria uma leitura em diagonal 4-2-4.

Fiz o bolão aqui da BBC Brasil e, como o goleiro na hora do pênalti (sim, eu sei que a imagem já foi literariamente aproveitada), aguardo o pontapé decisivo.

Deixei para o fim o mais importante: sim, exacerbo-me. Mas torço para que todos percam. Cansei de bandeiras, ufanismos, essas coisas que acabam dando em Iraque. Assumo uma pose olímpica e, como um César em sua tribuna de honra, desejo e sentencio: "Que empatem de zero a zero os piores!"

Exacerbação é isso aí.

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