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Ivan Lessa: Xiu! | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O nosso querido Houaiss diz que quando se quer pedir silêncio é assim: “Xiu!” E explica: “voz com que se pede silêncio ou se chama alguém”. O Houaiss mata a cobra e mostra o pau com um exemplo: “Xiu, não sabem ficar calados?” No meu mundo onomatopéico, eu diria – ou pediria, exigiria, mandaria – “Psss!” Dentro da etiqueta que aprendi no mundo das histórias em quadrinhos. “Xiu” ou “Psss”, o silêncio é de ouro e sempre o prezei, embora eu seja um daqueles camaradas que não saiba ficar quieto. Ao menos, creio, não falo alto. Silêncio, para mim, é um dos cinco prazeres da vida. Dou um “xiu” para mim mesmo e não entro nos detalhes dos outros quatro prazeres. Quando vim morar em Londres pela primeira vez, em 1968, uma das coisas que mais me impressionaram foi o silêncio. Estava pouco ligando para Beatles, Carnaby Street, minissaia e King's Road. Formidável mesmo era o silêncio. Falava-se baixo, não se gritava nem mesmo durante o assalto com lesão física e, quando do concerto no parque, o Hyde Park, dos Rolling Stones, em 1969, fiquei curtindo mais a ausência de som das porradas que saíam do que a lenha que comia no palco. Até meados dos anos 80, eu gostava de dizer que nunca ouvira buzina em Londres, a não ser quando para me avisar a tomar cuidado ao atravessar a rua, que era para eu não morrer. Era apenas um suave “xiu” que me eu levava. Exagero, claro. Mas não muito. Outros tempos, outros maus modos A vida passa, o tempo passa, e eu sem ninguém. Opa, perdão leitores! Cantarolei, sem querer – e talvez alto demais –, o “Ninguém me ama” do bom Antônio Maria. Eu queria era dizer que os anos se sucederam como coelhos (parafraseio agora o poeta W.H. Auden) e, hoje, o barulho é infernal. Nada que se compare aos meus postos de observação e, principalmente, de audição, na Copacabana de qualquer ano, mas é por aí, senhores, é por aí. Deu no jornal. E se deu no jornal, claro, só pode ser verdade. Lá está com todas as letras e manchete em alta decibelagem: 500 mil pessoas na Grã-Bretanha pretendem se mudar devido à barulheira feita pelos vizinhos. Estão falando de pesquisa, para variar, que a pesquisa está para os britânicos como a berraria e o ensaio da escola de samba está para nós. Dos pesquisados, 36% alegam que o barulho tem um efeito nocivo sobre suas vidas. Ora, e precisa de pesquisa para se saber disso? Francamente. Quem mais sofre na história, ao que parece, somos nós, os londrinos, com ênfase (ÊNFASE! urremos) naqueles que vivem em apartamentos ou casas alugadas os que mais sofrem. Eu vivo em apartamento (mas podem chamar de “flat”, que eu não ligo) arrendado. Conta? Meus vizinhos não são barulhentos. O pessoal do “flat” de baixo pára direitinho com o som da vitrola, ou seja lá que sistema usem para se divertirem, às 11 da noite. A moça do “flat” de cima sai cedo para o trabalho, chega tarde e cansada e não ouço patavinas (patavinas é bom, é gíria que vai pegar) do que ela faz. Espero que seja tudo nos conformes da lei. Conforme a lei do silêncio e a codificação dos bons costumes. De qualquer forma, por via das dúvidas, anotei um numerozinho de telefone que a gente liga para entregar os vizinhos barulhentos. Ainda não tive que recorrer a ele. Espero que não chegue o dia. No Rio, a questão dos alaridos só era levantada, aos berros, em reunião de condôminos e a síndica (é sempre uma síndica, não é mesmo?) respondia em voz estridente que, assim, “a coisa não podia continuar”. Parece que continuou. Parece que piorou. Parece que, apesar da apregoada algazarra, eu ainda estou na cidade mais adequada a meu ouvido e minha sensibilidade. |
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