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Atualizado às: 10 de maio, 2006 - 09h08 GMT (06h08 Brasília)
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Ivan Lessa: Ei, me empresta uns canhão aí!
Ivan Lessa
Em mais de um jornal britânico, encontro artigos e editoriais em louvor do “Lend-Lease Act”, ou seja, “Lei do Empréstimo-Arrendamento”, datada de 11 de março de 1941, quando os americanos, tendo à frente o presidente Roosevelt, encontraram a maneira de auxiliar os países europeus, então em guerra.

Lembremos que a Alemanha, em meados de 1940, já invadira e conquistara quase que a Europa inteira, ou pelo menos seu naco que interessava, com a França caindo em junho.

Desde 1939, com a assinatura de um pacto de não-agressão, a União Soviética de Stalin não era problema, embora todos soubessem que era apenas questão de tempo os alemães darem uma chegadinha lá.

O presidente Roosevelt, em memorável discurso diante do Congresso, alegorizou a situação dizendo que, se a casa do vizinho dele pegasse fogo, ele emprestaria de bom grado a mangueira, mediante a módica quantia de US$ 15.

A lei, imediatamente aprovada, como faria qualquer bom vizinho, autorizava a transferência de armas, ou materiais defensivos (leia-se e entenda-se de guerra), para qualquer país que o presidente Roosevelt julgasse merecedor.

Grã-Bretanha, União Soviética, China e até mesmo nosso Brasil (com todos aqueles navios da marinha mercante afundados pelos submarinos alemães e nada, nada da gente reclamar ou pedir uma mangueira emprestada ou arrendada).

Aviões, canhões, barcas

Foi assim que a Grã-Bretanha, naquele momento, comecinho de 1941, agüentando a barra sozinha na sucumbida Europa, conseguiu o seu “material defensivo” para continuar lutando: aviões, canhões, munição, e até mesmo navios, embora alguns historiadores afirmem que, no bolo, vieram uns que – e o símile é meu – mal dariam para fazer o percurso na época coberto pela Barca da Cantareira, ligando o Rio a Niterói.

Os EUA transferiram, segundo o programa de “empréstimo e arrendamento”, perto de US$ 48 bilhões em material bélico para outras nações. A parte do leão, conforme se diz em inglês, coube ao leão, então desdentado, da Grã-Bretanha: cerca de US$ 21 bilhões.

Uma quantia extraordinária, frise-se. Quase que o equivalente ao Produto Interno Bruto das ilhas britânicas. Saiu meio caro, frise-se também.

A uma certa altura dos empréstimos e arrendamentos, Washington “exigiu” em troca (mas não levou) as Índias Ocidentais Britânicas.

No entanto, a Grã-Bretanha concordou em ceder todos os direitos autorais e intelectuais, conforme se diz, sobre algumas inovações importantes, feito o radar, os antibióticos, os aviões a jato e até mesmo as pesquisas nucleares.

Era o “empréstimo e arrendamento” em reverso. Uma boa para o lado de lá, confere?

Boas contas, bons amigos

Terminada a guerra, há 61 anos esta semana, os americanos vieram com a “continha”. Desde 1950, a Grã-Bretanha vem pagando pontualmente as prestações anuais da dívida pelo empréstimo e arrendamento da utilíssima mangueira, para ficar na alegoria de Roosevelt. (Sejamos justos: “mangueira”, no caso, funciona melhor que “liquidificador”).

Semana passada, o Tesouro britânico confirmou que o último pagamento, ou prestação, no valor de perto de US$ 80 milhões, será feito até o fim do ano.

Todos aqui concordam que a tal da mangueira ajudou mesmo a apagar a conflagração.

O grande frasista que foi Winston Churchill, disse, de certa feita, que “se tratava do gesto menos sórdido feito por qualquer nação em qualquer época”. Mas é sabido também que, na noite de 7 de dezembro de 1941, depois dos japoneses atacarem Pearl Harbor, e os americanos se viram obrigados a declarar guerra e parar de ficar apenas emprestando e arrendando mangueira, Churchill, depois de seus conhaquezinhos, foi dormir bem mais sossegado.

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