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O Novo Tédio | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Mais um soldado britânico morto no Iraque. Que tédio. Grupo iraniano busca ingleses dispostos a se transformarem em homens-bombas. Ô chatice! Tony Blair enfrenta sua mais grave crise com a discutida questão da distribuição de títulos em troca de contribuições para o partido Labour (Trabalhista). Enfadonho. Médicos do serviço nacional de saúde chegam a ganhar 250 mil libras (mais de US$ 400 mil) por ano. Quão enfadonho. Violência aumenta nas regiões destituídas do Reino Unido. Como é cansativo isso tudo. Arsenal deverá chegar às finais da Liga dos Campeões. Aborrecidíssimo. Fábrica da Peugeot-Citröen fecha e lá se vão 2.300 postos de trabalhos. Fastio, fastio, fastio. Kate Moss em plena recuperação assina contrato milionário. Pura amofinação. Paul McCartney revela ter em sua posse quatro canções inéditas escritas em colaboração com John Lennon. Chatura, fastidioso, maçante. Não é que eu ache isso tudo. Estou querendo apenas estar por dentro. Trata-se da nova moda. Já pesquei em mais de uma coluna de variedades. Estão chamando de “The New Boredom”, assim mesmo, como se fosse nome de livro de ensaios ou banda de rock. O novo tédio. O velho tédio, eu o perdi. Bobo, bobeei. Até uma certa época, eu achava tudo uma tremenda novidade, bacanérrimo, supimpa, por demais excitante. Estava, para variar, por fora. Na verdade, segundo as pessoas que entendem disso, e que por isso mesmo assinam coluna em jornal e revista e dão entrevista na televisão e no rádio, segundo essas pessoas, dizia eu, morosa e tolamente, viver é uma coisa que nossos empregados podem perfeitamente fazer por nós. Com vantagem e a melhores preços. Tão pouco por dentro do tédio da vida estive e estou que eu podia jurar que a frase, o bon mot, era do Oscar Wilde, e não de um francês cujo nome se me escapou então e continua a me driblar hoje em dia, como se fosse ele um Ronaldinho do tédio e eu um beque (é o zagueiro de minha enfadonha mocidade) da várzea. Primeiros estudos Já há tese, antítese e síntese para o tédio organizado. Estudiosos do enfado, consultados pela mídia, afirmam que é preciso preparar as crianças de hoje para o sucedâneo de amofinações que é a vida. Numa nota repetitiva e cansativa, dizem eles, sem a menor imaginação, que “é de pequeno que se torce o pepino”. Afirmam, em voz monótona e estilo besta, que o tédio só traz benefícios. Seja como uma forma de se recuperar as energias bestamente gastas em tolices indizíveis, seja como uma preparação para os langores e delongas dessa marcha de amofinações (ó quão cedo se acabam os sinônimos! Que chato!) a que chamamos de Vida, com V maiúsculo. Apontam para o recente feriadão da Páscoa como um exemplo da chatura em lá maior. Melhor faz quem fica em casa bestando com preguiça até mesmo de acionar o controle remoto da televisão. Sim, sim, a televisão é a grande preparação para o grande, o vasto, o imenso tédio de – que remédio? – viver. E se é para viver, que seja em minúsculas e morrendo de saudades de décadas insuportáveis de monotonia, como a de 50, em que absolutamente nada aconteceu em todos os cantos e com todas as pessoa da Terra. Voltaire estava errado. Não é necessário cultivar nosso jardim. É preciso, isso sim, buscar a companhia dos chatos, e com eles aprender. Cada um de nós tem suas chatices prediletas. Um grande número de pessoas aprecia o indizível tédio daquelas outras pessoas que chegam e contam, em minúcias, seus desinteressantíssimos sonhos. Há que se buscar beleza e criatividade no tédio. Há que se procurar no tédio criatividade e beleza. Com beleza e criatividade. Há que se repetir, de modo ligeiramente diferente, tudo. A chatice a tudo superará. Mesmo à glória que honra e consola, mesmo a… Mas acho que já me fiz claro. É o mais gordo dos enfados possíveis. |
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